Educação Financeira começa a integrar grade curricular das escolas

Determinação da Base Nacional Comum Curricular passou a valer neste ano

Todas as escolas brasileiras devem adicionar educação financeira como tema transversal na grade curricular

Entre muitas outras lições, a pandemia do novo coronavírus ensinou a importância de um bom planejamento financeiro. Em um momento de incertezas e recessão econômica, são muitas as dificuldades enfrentadas pela população. Por conta disso, saber lidar com o dinheiro é algo que todas as pessoas deveriam saber fazer desde cedo.
E é justamente isso que busca o Ministério da Educação, ao determinar que, a partir deste ano, todas as escolas brasileiras devem adicionar educação financeira como tema transversal na grade curricular, conforme as diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC).
Quando a decisão do MEC foi divulgada, prevendo que as redes de ensino deveriam se adequar às novas normas na BNCC (que prevê o mínimo que deve ser ensinados nas escolas desde a Educação Infantil até o Ensino Médio), muitos acharam que seria uma nova disciplina a ser estudada. Mas não é bem isso.
“A educação financeira é um dos temas a serem desenvolvidos dentro do componente curricular Matemática, podendo ser abordado desde os anos iniciais da etapa do Ensino Fundamental, perpassando por todos os anos até o Ensino Médio”, explica Adriana Pagan, responsável pelo Currículo na Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.
O que isso significa? Que a educação financeira é um tema a ser abordado durante as aulas de Matemática das duas etapas de ensino (Fundamental e Médio).
“Nelas, a educação financeira faz parte dos objetos de conhecimento do componente Matemática portanto, devem ser desenvolvidos durante as aulas da disciplina com níveis de aprofundamento diferentes, levando em consideração a progressão das habilidades abordadas em cada ano/série”, afirma Pagan.

Materiais fornecidos
Para isso, segundo a porta-voz, serão fornecidos materiais de apoio para as redes de ensino a fim de dar subsídios aos professores para desenvolver as habilidades. Além disso, os profissionais de ensino também terão a liberdade de buscar outros materiais sobre o assunto para desenvolver suas aulas.
Mas o tema, não necessariamente será abordado apenas nas aulas de Matemática. A educação financeira poderá ser, inclusive, objeto de estudo em outras disciplinas, como Geografia e Língua Portuguesa, por exemplo. “Os professores dos componentes curriculares têm a liberdade desenvolver temas de diversos componentes desde que alinhados aos objetos que estão desenvolvendo em suas aulas”, explica.

Eletivas
A educação financeira também está disponível no componente Eletivas, uma novidade no currículo escolar neste ano a partir do 6º ano do Ensino Fundamental. Ou seja, o tema será ofertado, ainda, como uma espécie de “disciplina optativa” que a escola ou turma terá a liberdade de escolher para compor a grade curricular. A ementa, o material e o plano de aula são oferecidos pelo órgão central.
A educação financeira é importante para todos os indivíduos, independente da sua idade, já que melhora a relação com o dinheiro e serve para auxiliar a controlar os ganhos e os gastos racionalmente.

Abordagem
Para Adriana Pagan, a abordagem desde o Ensino Fundamental é essencial para que o estudante comece a se planejar quanto ao futuro e entender como suas ações no cotidiano impactam o seu orçamento a curto, médio, e longo prazo.
“Tanto no componente Matemática, como nas Eletivas, o objetivo é ensinar conceitos de educação financeira que se apliquem a realidade do estudante e ajudá-lo a planejar suas ações, ressignificando a matemática para a vida do estudante, ilustrando com situações cotidianas, em que a educação financeira se aplica, conscientizando os estudantes quanto a um consumo consciente e conseguir separar a percepção de necessidade e desejo sobre os objetos numa realidade consumista”, explica Pagan.

Planejamento
“Além disso, serve para ensinar os estudantes a realizar um planejamento financeiro e um orçamento pessoal com qualidade e realista, possibilitando um maior controle do dinheiro. Explicar princípios básicos da economia, quebrar paradigmas e possibilitar que o estudante se torne um pequeno investidor autônomo no futuro”, destaca.

Pais têm papel importante para educar sobre o tema

É importante que o tema também seja desenvolvido dentro de casa e em seu dia a dia

Para que a criança consiga, de fato, desenvolver uma boa educação financeira, ela não deve depender apenas das escolas. É importante que o tema também seja desenvolvido dentro de casa no dia a dia.
Para a jornalista Sabrina Mestieri Nakao, que tem um canal no YouTube sobre educação financeira na infância, o Crianças e Finanças, a importância de ensinar os filhos a saberem administrar seu dinheiro desde cedo vem da necessidade de planejamento para o futuro.
“A educação financeira na infância traz todo o conhecimento e noção de organização, do que é prioridade e de investimento que a nossa geração não teve. Precisamos facilitar isso para as crianças e eles vão crescer com essa mentalidade”, opina.

Momento certo
E como isso pode ser feito? Primeiro, é preciso identificar o momento de trazer o assunto à tona. “Quando a criança chegar naquela fase de falar ‘eu quero isso, eu quero aquilo’, chegou a hora de sentar com ele e conversar sobre o que é dinheiro, o que é cartão e as responsabilidades que você passa a ter quando começa a ter dinheiro. O que eu indico para os pais é dar mesada, para o filho aprender a ter responsabilidades”, relata.
Para isso, não existe uma metodologia específica. Cada idade tem um método eficaz diferente e é preciso levar em conta, também, a renda de cada família. Nakao, por exemplo, tem três filhos pequenos, o Gabriel, de oito anos, a Giovanna e o Gustavo, de seis. Ela dá R$ 50 para cada um deles e divide a quantia em 7 carteiras com finalidades diferentes.

Cores
A carteira vermelha é usada para comprar doces; a azul, presentes; a amarela, para emergências; a verde, para a diversão; a prateada/cinza, para investimentos; a roxa, para os sonhos. “Então, se eles querem um sorvete, por exemplo, eles pegam o dinheiro da carteira vermelha. Quando eles querem comprar um brinquedo, é da roxa”, explica a especialista.
“A cinza é para investimentos, para eles saberem que o dinheiro deles pode render. Todo mês, se eles colocarem uma quantia x nela, eu coloco mais um pouco. Eles já realizaram vários sonhos e desejos dessa forma”, revela.
E ainda sobra dinheiro para doação. A sétima carteira, a rosa, é voltada para contribuições. “Isso é importante para eles entenderam que quanto mais dinheiro eles têm, mais responsabilidade social eles adquirem”, afirma Nakao.

Ensino de educação financeira tem muitas histórias de sucesso

A educação financeira nas escolas traz importantes resultados

A educação financeira nas escolas traz resultados, de acordo com a AEF-Brasil. Pesquisa feita em parceria com Serasa Consumidor e Serasa Experian, este ano, mostra que um a cada três estudantes afirmou ter aprendido a importância de poupar dinheiro depois de participar de projetos de educação financeira. Outros 24% passaram a conversar com os pais sobre educação financeira e 21% aprenderam mais sobre como usar melhor o dinheiro.
É com o que aprendeu em sala de aula aos 16 anos que Adria Cristina da Costa, hoje com 18 anos, pretende ter o próprio restaurante. “Foi fundamental para entender que não é só gastar e curtir, mas é preciso pensar em si mesmo, pensar que o dinheiro vai ser necessário um dia”, diz.
Depois da formação, Adria conta que deixou de gastar apenas com roupas, sapatos, bolsas e artigos para a casa os R$ 80 que ganhava como babá e começou a guardar um pouco todo mês. Com o que poupava, comprava salgados, que vendia a R$ 2 com suco. Logo, os R$ 80 por mês, transformaram-se em R$ 100 por dia. “Quando eu tinha 16, 17 anos, eu queria ter o meu próprio restaurante. Ainda não consegui, mas, agora, em 2020, pretendo ter meu próprio negócio”, destaca.
Mudança de hábitos
Ela também mudou os hábitos da casa. “Meus pais trabalham muito e não têm tempo de analisar os gastos. Comecei a ajudá-los com os custos de energia, a tirar os aparelhos da tomada. Começamos a nos reunir para fazer uma lista do que é necessário comprar para chegar nas lojas e já saber o que levar e o custo disso”, diz.
Adria foi aluna de Mariá de Nazaré Conceição Sena, pedagoga e socióloga, que desde 2015 desenvolve projetos de educação financeira com os estudantes das escolas que leciona, no Amazonas. O primeiro foi na Escola Municipal Maria Madalena Corrêa, a estudantes do Ensino Fundamental e, o segundo, na Escola Estadual Professora Adelaide Tavares de Macedo, para o Ensino Médio, onde Adria estudou. Ambas são escolas em Manaus (AM).

Temas de suma importância

“A educação financeira está entre os temas que são de suma importância para o ser humano e que precisam ser desenvolvidos o quanto antes. Crianças têm possibilidade de mudança mais rápida e aceitam mais que os adultos”, diz a professora que agora mora em Presidente Figueiredo, onde pretende também desenvolver projetos de educação financeira.
Segundo a professora, o lidar conscientemente com o dinheiro está relacionado também com o cuidado com a saúde e com a preservação do meio ambiente. “Está relacionado com a alimentação saudável. Vou comprar produtos mais naturais ou industrializados? Está também relacionado ao acúmulo de lixo. Preciso mudar de celular todos os anos? Tenho essa necessidade? Qual o lugar para o descarte adequado de materiais obsoletos? A educação financeira] ensina a não ser consumista, mas sim consumidor”, completa.

Falta de conhecimento sobre o assunto prejudica os brasileiros

Diversos indicadores e pesquisas mostram como a falta de conscientização financeira atrapalha a vida dos brasileiros. Este ano começou com 61 milhões de brasileiros com o nome negativado no Serviço de Proteção ao Crédito (SPC).
Segundo o Banco Mundial, apenas 3,64% da população economiza para a aposentadoria, um dos índices mais baixos do mundo: a média na América Latina é de 10,6%, enquanto outros países emergentes, como México (20,85%), África do Sul (15,93%) e Rússia (14,56%), apresentam números melhores. Além disso, apenas 28% dos brasileiros declaram ter poupado algum dinheiro nos últimos 12 meses, o 14.º pior índice do mundo.
Esses números não são coincidência: um dos parâmetros de avaliação da educação do Pisa é o alfabetismo financeiro, em que o Brasil ocupou a última posição entre as 17 nações avaliadas nesse quesito em 2015.
Naquele ano, o escore médio brasileiro foi de 393, enquanto a média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) foi de 439. A nota dos estudantes brasileiros nesse quesito foi 43 pontos pior do que em matemática e leitura.
O economista e mestre em finanças comportamentais Gerson Caner acredita que a qualidade ruim da educação de base se reflete na baixa conscientização financeira.
Dificuldade
“Temos uma dificuldade muito grande das questões lógico-matemáticas e de leitura e interpretação de texto, e nas questões de educação financeira estão contidas interpretações de texto para as tomadas de decisão. Se não ocorre boa interpretação, a tendência é não decidir de forma correta”, explica.
O índice apontou que muitos estudantes brasileiros não alcançam nem a proficiência nível 1. Isso significa que no máximo conseguem discernir a diferença entre necessidades e desejos e tomar decisões simples sobre os gastos do dia a dia.
Mas mesmo entre quem tem dinheiro guardado no Brasil, a poupança continua como investimento preferido de nove em cada dez brasileiros, segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Porém, com a queda da Selic, a caderneta deve render menos do que a inflação em 2020, o que significa uma perda no poder de compra.
A Manager da TC School Roadshow Isabela Lima aponta que a ideia de que investimentos são “coisa de gente rica” se dá porque o Brasil ainda carece de informação sobre investimentos. “O mais importante é a linguagem acessível a todo o tipo de público, o que falta muito no país. As pessoas não investem por que não sabem que é possível fazer isso com pouco dinheiro”, diz.
Gerson Caner afirma que a educação financeira vai muito além de dinheiro e finanças. “Pesquisas comprovam que ela reforça a convivência familiar, estreita vínculos com outros temas relevantes compartilhados em família, ensina a lidar melhor com frustrações e cria consumidores conscientes e compatíveis com uma economia mais sustentável”, conta.
Consumo
Ele analisa que os brasileiros, em geral, têm muita propensão ao consumo e baixa consciência sobre a necessidade de poupar. “Mesmo aqueles que teriam possibilidade de poupar não o fazem, pois têm pouco estímulo social e coletivo”, diz.
“Entender mais de finanças pessoais contribuiria para evitar escolhas terríveis, como a de utilizar o limite do cheque especial, pagar apenas parcialmente o cartão de crédito ou emprestar o nome para amigos e parentes”, afirma.
Impacto na Base Curricular
Em 2020 a educação financeira passa a integrar a base Nacional Comum Curricular, o que Caner vê como avanço. “Os países com melhores resultados no teste, não coincidentemente, já têm educação financeira nas escolas desde o início deste século. No futuro próximo, uma escola que não forneça a disciplina de educação financeira será vista da mesma forma que uma escola que não ofereça educação física, artes ou idiomas”, afirma.
Ele cita que há muitas “crenças limitantes” sobre finanças, como “dinheiro é a raiz de todo mal”, “só fica rico quem fez coisa errada, “dinheiro não traz felicidade” e que esses dogmas contribuem para dificuldade em lidar com finanças ao longo da vida.
“A disseminação de educação financeira nas escolas e a conscientização de sua importância deve produzir efeitos de longo prazo no sentido de minimizar essas crenças limitantes, tão prejudiciais para o indivíduo e a comunidade que o cerca”, analisa.
Incentivo
Isabela Lima, da TC School Roadshow, concorda sobre a importância de educação financeira ser ensinada nas escolas públicas e privadas. “Hoje existem muitos jogos infantis que incentivam as crianças a aprender de maneira simples e divertida sobre finanças, então também é papel dos pais incentivarem essas práticas e acompanharem de perto a educação financeira dos filhos”, diz.

Estímulo

Ela aponta que o novo cenário econômico pode estimular a procura por maior conhecimento para quem já poupa algum dinheiro. “Com o cenário de juros baixos e a poupança não estar mais ‘rendendo’, muitas pessoas estão procurando mais informação. Hoje há investimentos para todos os bolsos. Precisamos focar em educação financeira acessível para todos”, afirma.
Gerson Caner acredita que o cenário macroeconômico atual, com os juros mais baixos da história brasileira e uma inflação controlada, pode representar o início de uma importante “era de empreendedorismo no país”. Algo possível apenas com educação financeira.”