It: A Coisa – Confira as principais diferenças entre o livro e os filmes

Cena do filme It: A Coisa

Stephen King escreveu It: A Coisa como uma das histórias de horror mais lendárias da literatura americana.
A obra, lançada em 1986, é um verdadeiro épico de terror que acabou gerando diversas adaptações ao longo dos anos — desde a minissérie assustadora de 1990 até o reboot moderno dividido em dois filmes, lançados em 2017 e 2019.
A cidade de Derry, o Clube dos Otários e a criatura mutante Pennywise, capaz de assumir qualquer forma que desejar, passaram por mudanças enormes nas telas.
Por conta disso, o site O Vício listou as dez maiores diferenças entre o livro original de King e as adaptações para TV e cinema — mudanças tão profundas que transformaram completamente partes da história. Confira:

Reconfiguração temporal
No livro, conhecemos o Clube dos Otários no final dos anos 1950, um período cheio de ingenuidade pós-guerra, mas também marcado pelas tensões da Guerra Fria.
Os eventos de 1957 e 1958 moldam a infância do grupo, enquanto o reencontro adulto acontece em 1985.
Essa estrutura dupla reforça o contraste entre infância e vida adulta, além de conectar as mudanças culturais de cada época.
Nos filmes, tudo é deslocado. A infância dos personagens acontece no final dos anos 1980 — entre 1988 e 1989 — e o reencontro se passa em 2016.
Essa mudança reconstrói a nostalgia da história. Isso aproxima a história do público atual, mas também altera parte da textura temática do romance, trocando reflexões sobre a América pós-guerra por uma abordagem mais voltada para o terror individual.

A Prole de Pennywise
No livro, durante o confronto final de 1985, os personagens descobrem que a criatura é, na verdade, fêmea — e está botando ovos.
Quando assumem que a forma mais próxima de sua aparência real é a aranha gigante, Bill e Richie percebem que ela está prenha. O ninho possui cerca de 200 ovos, e enquanto Bill e Richie perseguem o monstro ferido, Ben Hanscom fica para trás para esmagar cada um deles, garantindo que nenhum filhote sobreviva. A esposa de Bill, Audra, confirma o horror ao sussurrar: “Meu Deus… é fêmea”.
Isso muda totalmente o significado da batalha final: os heróis não estão apenas destruindo um monstro, estão eliminando sua descendência.
King deixa até mesmo uma pontinha de dúvida se todos os ovos foram destruídos — uma incerteza reforçada em outros livros, como O Apanhador de Sonhos, onde surge o grafite “Pennywise Vive”.
Nos filmes, todo esse aspecto é removido, simplificando o final para uma luta mais convencional.

As formas monstruosas que Pennywise assume
No livro, Pennywise é um verdadeiro pesadelo mutante: lobisomens, múmias, criaturas míticas, formas que atacam cada criança usando seus medos específicos. As manifestações são variadas e profundamente psicológicas.
Nos filmes, porém, a criatura assume quase sempre a forma de palhaço, o que cria um ícone visual mais simples e imediato.
Isso deixa o terror mais direto, mas também sacrifica a riqueza de horrores personalizados presentes no romance. Embora na nova versão ele pelo menos use algumas das outras formas.

O papel de Beverly Marsh
Nos livros, Beverly é praticamente uma “final girl”: corajosa, ativa, e responsável pelos disparos com a atiradeira que ferem Pennywise.
Ela participa igualmente das batalhas e nunca ocupa o papel de vítima a ser salva.
Nos filmes, isso muda. Depois de enfrentar seu pai, ela é sequestrada por Pennywise, e os meninos precisam resgatá-la.
Lá, ela é encontrada levitando, presa em transe, até ser despertada pelo beijo de Ben. Essa mudança a transforma, momentaneamente, na “donzela em perigo”, contradizendo a força que ela mostra em outras cenas.
O segundo filme tenta corrigir isso ao mostrar Beverly adulta enfrentando e derrotando seu marido abusivo.

A ausência do Ritual de Chüd
No livro, o confronto final é metafísico, simbólico e quase filosófico: uma batalha de mentes, crenças e também de realidade.
O Ritual de Chüd envolve as Luzes da Morte, enigmas e uma luta que está muito além da compreensão humana.
Nos filmes, isso é substituído por um confronto físico e direto nos esgotos — mais fácil de filmar, mais fácil de entender, mas bem mais simples que a versão original.

O papel de Henry Bowers
No romance, Henry é uma manifestação humana do mal de Derry — um ciclo de violência que atravessa gerações.
Depois de ser internado em Juniper Hill, ele escapa quando adulto, com a ajuda de Pennywise, e volta para atacar os protagonistas novamente, ferindo Mike gravemente e quebrando o braço de Eddie pela segunda vez.
A luta com Henry adulto adiciona um paralelo perfeito entre passado e presente.
Nos filmes, Henry aparece muito menos. Ele tem sua participação reduzida a um obstáculo rápido, sem toda a carga simbólica do romance.

A remoção do trauma racial que envolve Mike Hanlon
No livro, Mike é o centro emocional da história. Seu pai sobrevive ao ataque racista que destrói o Black Spot, um clube negro incendiado por uma organização equivalente à Ku Klux Klan.
O racismo estrutural de Derry é um tema enorme e essencial.
Nos filmes, isso desaparece. Os pais de Mike morrem em um incêndio genérico, e sua história perde profundidade social e histórica.
Assim, perde-se a conexão entre o mal sobrenatural de Derry e o mal humano tão presente no romance.