Idosa de 78 anos chegou a ser intubada no Polo Covid Central, mas não resistiu à espera de 7 dias. Segundo a Prefeitura, rede de saúde está em pré-colapso. Ocupação nesta sexta-feira (2) é de 96,8%.
A atendente Kelly Caroline Dorsi afirma que a avó com Covid-19 morreu à espera de uma vaga de unidade de terapia intensiva (UTI), em Ribeirão Preto (SP). Segundo a jovem, Conceição Angelotti, de 78 anos, chegou a ser intubada no Polo Covid Central, mas não resistiu.
Há duas semanas, Kelly percebeu que a avó perdeu completamente o apetite e passava o dia dormindo. Desconfiada de alguma doença, levou a idosa à Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) Oeste, no bairro Sumarezinho.
“Ela estava com coriza já, estava há alguns dias gripada, perdeu o apetite, sentia dores. Levei para a emergência e disseram que poderia ser Covid, mas deixaram ela em observação porque a saturação estava baixa. Ela fez o teste para Covid”, diz.
O resultado positivo saiu dois dias depois e dona Conceição foi transferida para a UPA Leste, mas acabou tendo alta menos de 12 horas após a internação, segundo Kelly.
“Ela estava sonolenta, não falava nada com nada, estava sem máscara. Eu falei para uma enfermeira que ela não estava bem. Ela foi lá, conversou com a médica, que disse que não poderia vir falar comigo, e disse que ela estava naquelas condições, sonolenta, por causa da medicação.”
Agravamento e morte
Mas, de acordo com Kelly, em casa, a avó piorou e ela buscou atendimento mais uma vez na UPA Oeste.
“Ela não parava em pé, com a respiração bem comprometida, ela estava bem pior. De lá da emergência, levaram ela para o pronto-socorro Central [Polo Covid]. Eles colocaram ela no oxigênio. Uma enfermeira veio conversar comigo e falou que ela estava confusa por causa da saturação muito baixa. Depois que estava no oxigênio, melhorou bastante, já estava mais ativa.”
No entanto, segundo Kelly, o quadro se agravou mais uma vez e a avó foi intubada.
“No sábado, um médico entrou em contato e disse que ela tinha tido uma piora, que foi preciso intubar. Ele falou que ela estava aguardando uma vaga para a UTI, porque ela precisava de ter mais recursos e lá eles não teriam, mas não deu tempo. Ela ficou quase sete dias esperando essa vaga de UTI, não chegou.”
Cobrança
Advogado da família, Leonardo Afonso Pontes diz que pretende acionar a Justiça contra o poder público.
“O poder púbico foi negligente, falhou deixando de dar a necessária assistência e a devida atenção a uma paciente idosa com as características e os quadros que apresentava, que certamente culminou na morte dela.”
Dias antes de enterrar a avó, Kelly sepultou uma tia, também vítima da Covid-19. A jovem diz que ela não chegou a ser internada no Polo Covid, mas a viu piorar enquanto buscava ajuda médica na rede pública.
“Do meu ponto de vista, ela estava precisando da internação, tanto que em cinco dias ela foi embora. Mas toda vez que ia procurar a emergência falavam que não era caso de internação, ela poderia ir para casa continuar as medicações, se piorasse retornava. Ela chegou a ir com falta de ar e diziam que não era caso de internação. Ela morreu em casa, não deu tempo da ambulância chegar.”
A atendente faz um apelo às pessoas para que tomem cuidado para evitar a infecção pelo coronavírus.
“O negócio está feio sim. As pessoas só vão começar a perceber quando perderem algum pai, uma mãe, um irmão. E pode ser tarde demais, a gente já perdeu muita gente.”
O que dizem a prefeitura e o estado
Nesta sexta-feira (2), a taxa de ocupação de leitos de UTI nas redes pública e privada em Ribeirão Preto é de 96,8%.
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Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde informou que a cidade enfrenta um pré-colapso do sistema de saúde, resultado do desrespeito por parte da população às medidas sanitárias de combate ao coronavírus.
Segundo a Prefeitura, todos os pacientes moderados e graves atendidos nos dois polos Covid de Ribeirão Preto recebem os cuidados necessários para o tratamento adequado das fases iniciais da doença.
“No entanto, muitos casos têm evolução muito rápida para a gravidade extrema, mesmo dentro dos hospitais da cidade.”
Procurada, a Secretaria Estadual de Saúde disse que a Central de Regulação de Oferta de Serviços de Saúde (Cross) registrou aumento de 117% na demanda de transferências para casos de Covid-19 em comparação ao pico anterior da pandemia.
“A regulação depende da disponibilidade de leitos e de condição clínica adequada para que o paciente seja deslocado com segurança até o hospital de destino.”
Fonte: https://g1.globo.com/

