Livro e pesquisas apontam alimentos bons para o cérebro e organismo

Sigmund Freud (1856-1939), em sua poltrona de couro, dá as caras nas primeiras linhas do livro recém-lançado Seu Cérebro Bem Alimentado, da Editora Fontanar, escrito pela psiquiatra Uma Naidoo, diretora do Departamento de Psiquiatria Nutricional e do Estilo de Vida do Hospital Geral de Massachusetts, nos Estados Unidos.
O pai da psicanálise surge, numa alegoria, recomendando salmão aos pacientes. É como se, casando a boa e velha terapia com uma refeição equilibrada, pudéssemos acessar e melhorar a saúde mental.
Pois o reflexo dos alimentos no cérebro, alvo da obra de Uma e de uma nova disciplina — a psiquiatria nutricional —, é um enredo fascinante e complexo, que combina ingredientes da neurociência, da medicina, da psicologia e da nutrição.

Interação
Engloba a interação da comida com os circuitos neuronais ligados às emoções e à cognição e sua interferência na liberação de neurotransmissores, na conexão e na integridade entre as células nervosas — até o intestino participa da história
O salmão de Freud cairia ainda melhor se viesse acompanhado de vegetais. É o que dá para tirar de conclusão de uma pesquisa com dados de mais de 8 mil pessoas realizada pela Universidade Edith Cowan, na Austrália. “Observamos que, entre os maiores consumidores de frutas e hortaliças, havia menor tendência ao estresse”, conta a nutricionista brasileira Simone Radavelli-Bagatini, uma das autoras.
“Os mecanismos por trás desses efeitos ainda não estão totalmente elucidados, mas a desconfiança recai sobre a modulação dos chamados happy hormones, a dopamina e a serotonina”, diz.

Consumo de vegetais
Na mesma toada, outro grupo australiano desvendou, após revisão da literatura científica, uma relação entre consumo de vegetais e menor risco de depressão. De novo, o mix de vitaminas e fitoquímicos seria o responsável por elevar a liberação dos neurotransmissores da felicidade — o que se traduz em mais prazer e menos angústia e irritação.
Outras vias estariam implicadas no elo comida-cabeça, como a blindagem das células cerebrais, mas há um caminho até se bater o martelo. “Temos hipóteses interessantes, mas é preciso tomar cuidado com a precipitação e o otimismo exagerado”, pondera o psiquiatra Táki Cordás, professor da Faculdade de Medicina da USP.
“As doenças neuropsiquiátricas impõem grandes desafios porque ainda não entendemos completamente como se originam e de que forma podemos preveni-las e manejá-las”, afirma a bióloga Ivana Cruz, da Universidade Federal de Santa Maria (RS).

Longevidade
Envolvida em pesquisas sobre longevidade há mais de duas décadas, com incursões pela Amazônia, a professora deparou com relatos do povo de Maués sobre os poderes mentais do açaí. “As pessoas comentavam que ele melhorava o humor”, lembra. Em seu laboratório, ela desvendou que substâncias do fruto (os polifenóis) combatem disfunções nos neurônios associadas ao transtorno bipolar — que alterna fases eufóricas e períodos deprimidos.
O achado tem a ver com um fenômeno cada vez mais estimado na psiquiatria nutricional, a ação antioxidante. Que não é exclusividade do açaí e ainda protegeria o cérebro de males que colapsam a cognição, como o Alzheimer. As vitaminas A, C, E e ácido fólico, assim como zinco, selênio e a turma dos flavonoides e dos carotenoides, são os mais citados pelo efeito.

Ômega-3
Há também indícios de que, fora resguardar áreas do cérebro — destaque para o hipocampo, envolvido na resposta ao estresse e na consolidação das lembranças —, o ômega-3 aprimora a comunicação entre os neurônios.
Esse tipo de gordura, aliás, é o mesmo preconizado ao bom funcionamento do coração. Daí o conselho do neurologista Lucas Schilling, do Instituto do Cérebro da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS): a massa cinzenta agradece se você montar um cardápio amigo do peito. “A alimentação equilibrada preserva os vasos sanguíneos, o que vai repercutir na saúde de todo o organismo e reduzir o risco de males como o acidente vascular cerebral”, justifica.
Nesse sentido, a dieta Mind, estudada para prevenir doenças neurodegenerativas, se inspira no menu mediterrâneo e na Dash, um cardápio elaborado há décadas para conter a pressão alta e salvaguardar o músculo cardíaco.
E, recentemente, pesquisadores europeus notaram que o descontrole dos níveis de triglicérides (outro perturbador do sistema circulatório) está relacionado ao declínio cognitivo.

Glicose

A nutricionista Maristela Strufaldi, da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), explica que a sobrecarga de glicose no organismo, que costuma andar de mãos dadas com altas taxas dessa molécula gordurosa, pode culminar num desarranjo nas sinapses, as conexões entre os neurônios.
Mais um motivo para moderar nos carboidratos refinados e privilegiar os integrais e outros redutos de fibras.