Médicos se posicionam contra o tratamento precoce da Covid-19 – I

Equipe da Ala Covid da Santa Casa de Ituverva

O chamado “tratamento precoce contra a Covid-19”, que consiste no uso de um kit de medicamentos para prevenir
a doença, tem sido alvo de polêmica

Depois que o vereador Marcelo de Oliveira Cirilo (“Kuru”) apresentou requerimento na sessão da Câmara do dia 26 de março, solicitando que o Poder Executivo estabeleça um programa municipal de tratamento precoce para a Covid-19, médicos da cidade, liderados pelo diretor técnico da Santa Casa e integrante da Secretaria de Saúde de Ituverava, Dr. Gonçalves Dias, que está à frente da equipe que trata da pandemia do coronavírus no município, uniram-se e fizeram um abaixo-assinado para contestar a medida.
O chamado “tratamento precoce contra a Covid-19”, que consiste no uso de um kit de medicamentos para prevenir a doença, tem sido alvo de polêmica. Com o aumento de casos de coronavírus e também de mortes nos últimos dias, muitas dúvidas têm surgido sobre esse recurso.
Para esclarecer alguns dos principais pontos sobre o tema, Dr. Gonçalves Dias fez uma série de considerações na Tribuna de Ituverava.
Segundo ele, a Organização Mundial da Saúde já definiu que não existe, até o momento, medicações baseadas em evidências científicas que possam ser usadas no tratamento da Covid-19, ou seja, ainda não existe nenhum remédio capaz de eliminar o vírus responsável pela doença, portanto, não existe tratamento precoce para a doença.
Apesar de alguns municípios distribuírem Hidroxicloroquina, Azitromicina, Ivermectina e vitamina D, entre outras substâncias, com a promessa de evitar o agravamento da pandemia, nenhum estudo científico sólido comprovou que tais drogas curam ou previnem a infecção.
Para que uma medicação seja considerada eficaz contra a doença, ela precisa passar por estudos com rigor metodológico e que possam atestar seus benefícios e riscos.
Até o momento, nenhum dos medicamentos usados contra a Covid-19 foi aprovado por cientistas para evitar ou tratar casos leves da doença.

O que a literatura médica diz sobre tratamento precoce e medicamentos usados no referido tratamento:

  1. Hidroxicloroquina e Azitromicina têm comprovação científica no tratamento da covid?
    Não. A Hidroxicloroquina, indicada para lúpus e malária, não funciona para prevenir a Covid-19 ou tratá-la em diferentes fases, seja sozinha ou combinada ao antibiótico Azitromicina. Diversos experimentos já mostraram a sua falta de eficácia. A OMS (Organização Mundial da Saúde) e a Cochrane, entidade especializada em revisões de estudos, publicaram inclusive análises sobre os resultados dessas pesquisas.
    A Azitromicina também não apresentou resultados positivos em experimentos com humanos. Por ser um antibiótico, o medicamento pode ser usado para tratar vítimas de Covid-19 que tenham desenvolvido pneumonia bacteriana.
  2. A ivermectina é eficiente no tratamento da covid?
    Os estudos sobre a eficácia do vermífugo Ivermectina no tratamento da Covid-19 ainda são iniciais e, por isso, ainda não é possível dizer que o medicamento é eficaz contra a infecção. A Merck, criadora da droga, alerta que ainda não existem evidências para permitir a indicação do antiparasitário no combate à doença.
    A falta de evidências conclusivas não significa, no entanto, que um paciente pode se tratar com o remédio por conta própria ou tomá-lo de forma preventiva. Entidades médicas como a FDA (Foods and Drugs Administration, órgão americano semelhante à Anvisa), a Agência Europeia de Medicamentos e a Sociedade Brasileira de Infectologia não recomendam sua administração regular porque grandes doses tornam a Ivermectina tóxica para os seres humanos.
  3. Outros medicamentos e vitaminas que são usados como “tratamento precoce”?
    Alguns médicos receitam Vitamina C, Vitamina D, Zinco, Nitazoxanida e o anti-inflamatório Colchicina, com a falsa promessa de que evitam ou curam a Covid-19. Assim como acontece com a ivermectina, algumas dessas substâncias estão sendo estudadas como terapias potenciais contra a infecção. No entanto, nenhum deles é comprovadamente eficaz contra a Covid-19 e seu uso indiscriminado pode causar danos à saúde.
  4. Existe risco a saúde ao fazer uso do tratamento precoce?
    Sim. As bulas dos medicamentos que são usados como tratamento precoce da Covid-19 apontam quais são os efeitos colaterais causados pelas substâncias. A da Hidroxicloroquina, por exemplo, recomenda cautela com pacientes com doenças hepáticas ou renais e com problemas cardíacos, gastrointestinais e neurológicos.
    A Ivermectina, por sua vez, não deve ser usada por crianças menores de cinco anos ou com menos de 15 kg ou ainda por gestantes.
    Esses efeitos são descritos nos estudos que aprovaram esses medicamentos para uso nas doenças para as quais seu efeito benéfico esta cientificamente comprovado tomar esses remédios de forma exagerada ou para finalidades não previstas na bula pode agravar as reações adversas.
    Na cidade de São Paulo, por exemplo, cinco pacientes que tinham tomado medicamentos sem comprovação contra a Covid-19, como a Ivermectina, foram para a fila de transplante de fígado. Os seus exames complementares mostram que a doença no fígado foi causada por reação medicamentosa.
    Além de causar danos à saúde, o uso indiscriminado de antibióticos — caso da Azitromicina — também pode estimular o aparecimento de bactérias multirresistentes aos antibióticos, o que dificulta o tratamento de uma complicação comum em pacientes Covid: a pneumonia bacteriana.
  5. Quando é possível dizer que um medicamento é eficaz contra uma doença?
    A eficácia de um FÁRMACO seja um remédio ou uma vacina, só pode ser confirmada por meio de estudos conhecidos como “padrão ouro”, que seguem métodos científicos rígidos, como:
    Grupo de controle: pesquisadores recrutam voluntários que são divididos em grupos. Uma parte recebe a droga estudada e a outra toma uma substância sem efeito. Essa divisão em grupos permite descartar o chamado efeito placebo, quando um paciente apresenta uma melhora que não tem relação com uma substância, mas com um efeito psicológico de achar que ele está tomando um medicamento eficaz, por exemplo.
    Randomização: voluntários com características similares, com faixa etária, são incluídos nos grupos de forma aleatória — sem escolha do pesquisador —, para evitar influências de outros fatores que não seja o objeto de teste nos resultados. Isso elimina o risco de, por exemplo, o pesquisador selecionar pessoas mais saudáveis para facilitar a aprovação de um medicamento.
    Duplo-cego: os pesquisadores e os voluntários não sabem quem recebeu a substância pesquisada ou o placebo (sem efeito). Desta forma, são evitados vieses nos resultados como, por exemplo, que cientistas tratem com mais cuidado pacientes que receberam o medicamento para influenciar no resultado do estudo.
    Publicação: uma vez concluído, o estudo é publicado de forma preliminar, o chamado “preprint”, para ser revisado por pesquisadores independentes. Nessa fase, algumas inconsistências nos dados podem ser corrigidas. Somente após a avaliação feita por pares é que o medicamento ou vacina pode ser usado pela população fora do ambiente de pesquisa.
  6. Por que a experiência de uma pessoa ou cidade não serve como comprovação científica?
    O potencial de um medicamento no tratamento ou prevenção de uma doença não pode ser medido com impressões pessoais ou especulações. Há relatos de pacientes que supostamente se curaram após tomar Hidroxicloroquina e de pessoas que tomaram a droga e morreram. Portanto, para determinar se ela funciona ou não é necessário fazer pesquisas controladas como explicado acima.
    Além disso, esse tipo de experimento pessoal não leva em conta todas as outras características dos pacientes: idade, presença ou não de comorbidades, gravidade da infecção, ou se ele está tomando outros medicamentos, por exemplo. Sem essas informações, não é possível saber se o remédio influenciou ou não a recuperação.
    Por esses mesmos motivos, o fato de uma cidade ter identificado a redução do número de internações e óbitos por Covid-19 após a adoção de “tratamentos precoces” não prova que uma coisa tenha relação com a outra.
    Para estabelecer essa relação são necessários dados sólidos sobre a distribuição e o consumo do remédio. É preciso saber, por exemplo, quantas pessoas entre as que tomaram ou não a droga, tiveram agravamento da doença. Em geral, os municípios sequer fazem esse tipo de acompanhamento.
    As características das cidades também mudam a forma de disseminação do vírus, como a quantidade de idosos, de pessoas com comorbidades, a densidade populacional, o uso de transporte público, entre outras. Municípios com a maioria da população em área rural, por exemplo, já têm uma população que vive mais isolada do que os que contam com população mais concentrada em área urbana.
    Além disso, há municípios que anunciaram o uso de medicamentos para “tratamento precoce” e que registraram agravamento da pandemia mesmo assim. Itajaí (SC), por exemplo, distribuiu Iivermectina para a população, mas apresenta uma das maiores taxas de mortalidade entre as cidades de Santa Catarina com mais de 100 mil habitantes. Uberlândia (MG) distribuiu Cloroquina mas continuou com o número de mortes por Covid-19 em crescimento.
  7. Algum medicamento já demonstrou comprovação científica positivo no tratamento da Covid -19?
    Até o momento, apenas as vacinas desenvolvidas contra a infecção e aprovadas após uma série de testes em humanos são capazes de impedir a Covid-19.
    Como dito anteriormente, a ciência não identificou nenhum remédio que possa evitar ou tratar precocemente a Covid-19. Foram descobertos apenas medicamentos que podem tratar complicações específicas da Covid-19 em pacientes já internados, mas não curar a doença.
    O corticoide Dexametasona, por exemplo, reduziu a mortalidade de pacientes com casos graves e críticos e que necessitam de ventilação mecânica. O Remdesivir, por sua vez, diminuiu o tempo de recuperação de adultos hospitalizados e foi aprovado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para ser usado nestes casos no Brasil. Nenhum desses dois remédios, no entanto, evita a Covid-19 ou a internação por conta da doença e, por isso, não podem ser usados de forma preventiva.
    Uma boa maneira de conferir as últimas atualizações sobre as terapias que são estudadas contra a infecção é acompanhar o guia da OMS e o portal de evidências da Universidade de Oxford.

Referências bibliográficas:

  1. Oms; 2. The Lancet; 3. The New England Jornal of Medicine; 4. Fda; 5. Anvisa; 6. Sociedade brasileira de infectologia