
O Banco Central, por meio do Comitê de Política Monetária (Copom), tende a reduzir modestamente a atual taxa básica de juros da economia, a Selic, em 0,25 ponto percentual, para 14,50% ao ano, na reunião que se inicia nesta terça (28/04) e que terá resultados anunciados na quarta-feira (29/04). Em sintonia, especialistas e entidades financeiras consultados pela reportagem de O TEMPO cravaram essa redução, acompanhando o ritmo da última reunião do Copom, realizada no início de março.
E esta será mais uma “Superquarta” do mercado financeiro no ano, já que o Fed (o Banco Central dos Estados Unidos) também decidirá sobre a taxa de juros referencial norte-americana. Mas, por lá, o mercado acredita que os atuais patamares serão mantidos.
Relatório do banco Daycoval mostra que a expectativa é que o BC reduzirá novamente a taxa de juros em 0,25 p.p., levando a taxa Selic para 14,50%. “Apesar da manutenção do cenário externo desafiador e da alta recente tanto da inflação doméstica quanto das expectativas de inflação, o BC deve continuar calibrando o nível de juros. Do lado da inflação, o IPCA-15 de março deve ter alta de 0,90%, com forte alta da gasolina e dos preços dos alimentos. Além disso, para o IGP-M de março, a expectativa é de 2,5%”, informou.
No cenário internacional, o destaque da semana são os desdobramentos do conflito no Oriente Médio, dados do PIB nos EUA e decisões de juros em diversos bancos centrais. “Nossa expectativa é que o banco central norte-americano (Fed) mantenha inalterada a taxa de juros em meio à alta recente da inflação puxada pelos preços de energia, mercado de trabalho sem novidades e o conflito no Oriente Médio sem definição”, completa o relatório do Daycoval.
Geopolítica influencia decisão das autoridades monentárias
O Boletim Focus indicou uma elevação nas expectativas de inflação para o período entre 2026 e 2028, sendo 4,68% para este ano, o que reacende discussões sobre os impactos de pressões de custos, especialmente em itens relevantes como combustíveis e fertilizantes, sobre a economia brasileira. A pressão de preço sobre esses itens vem do conflito no Oriente Médio. Estados Unidos e Irã tentam mais um acordo de paz, mas não há sinais positivos. Tanto que, nesta terça-feira (28/04), o preço do barril de petróleo subiu 4%, para mais de US$ 110.
Para Sara Paixão, analista de macroeconomia da InvestSmart XP, na reunião do Copom desta semana não são esperadas mudanças no ritmo de corte de juros, sendo o mais provável o de 0,25 p.p. “O espaço para cortes ao longo do ano parece mais limitado do que o projetado anteriormente. No início de 2026, a expectativa era de uma Selic terminal em torno de 12%, mas essa projeção já foi revisada para 13%”, avalia.
“Vale dizer que outro fator relevante para a trajetória dos juros é o câmbio. O real acumula valorização de 9,23% ao longo de 2026, mesmo em um ambiente de maior incerteza global. Caso esse movimento se mantenha, pode contribuir para um maior espaço de flexibilização monetária. Por outro lado, o avanço do calendário eleitoral tende a elevar a volatilidade da moeda, adicionando um elemento de cautela ao cenário”, completa Sara Paixão.
Apesar das tensões geopolíticas no cenário internacional, a Associação Brasileira de Bancos (ABBC) avalia que o Copom deverá dar continuidade ao processo de calibração da taxa básica de juros. A entidade projeta um ajuste de menor magnitude, com redução adicional de 0,25 p.p. na taxa Selic, para 14,50% ao ano.
Na avaliação da ABBC, o atual ambiente demanda condução cautelosa da política monetária, diante da elevada incerteza quanto “à magnitude e à persistência dos choques externos, especialmente aqueles associados ao conflito no Oriente Médio e seus desdobramentos sobre os preços de energia”. “Mesmo com a continuidade do ciclo de cortes, a taxa de juros deverá permanecer em patamar significativamente contracionista, contribuindo para assegurar a convergência da inflação ao longo do horizonte relevante e a manutenção do poder de compra da economia em um contexto de elevada incerteza global”, destaca o diretor de Economia, Regulação e Produtos da ABBC, Everton Gonçalves.
Superquarta sem novidades
Paula Zogi, estrategista-chefe da Nomad, acredita que a “Superquarta” deste dia 29/04 girará em torno de pouca novidade em termos de juros, mas muito foco em sinalização de ritmo futuro. Para o Copom, segundo a especialista, há mais incerteza, com as apostas inclinadas para um corte de 0,25 ponto percentual, “embora a tese da manutenção tenha ganhado força com o cenário de guerra pressionando as expectativas de inflação”, avalia a estrategista. “A sinalização para junho ficará no radar, já que a expectativa de cortes é importante para elevar a confiança dos investidores e manter a perspectiva positiva para ativos de risco. Caso o comunicado afaste a expectativa de cortes, o mercado pode reagir negativamente”, completa.
Nos EUA, segundo Paula Zogi, a probabilidade de manutenção é elevada, acima de 90% de chance. “Com a inflação ainda longe da meta e as novas pressões sobre combustíveis (que podem contaminar preços de forma mais ampla), é esperado que o tom do último comunicado sob a presidência de Jerome Powell seja de cautela, indicando pausa mais longa. Powell deve usar seu espaço na coletiva de imprensa (prevista para o dia 29/04) para reforçar seus feitos na cadeira e relembrar que considera a política monetária atual em território entre neutro e ligeiramente restritivo, reduzindo o espaço de novos cortes agressivos. Um tom mais dovish poderia estimular a busca por ativos de risco”, conclui a especialista.
Fonte: https://www.otempo.com.br/



