
Quem não gosta de musicais geralmente tem ranço do mesmo clichê: pessoas interrompendo uma conversa normal para cantar e dançar do nada em um mundo onde tudo é excessivamente colorido e feliz.
Para quebrar essa barreira, a saída é buscar obras que usam a música de forma transgressora, sombria, diegética (quando as músicas fazem parte da realidade dos personagens, como uma banda tocando) ou completamente bizarra.
Confira uma seleção de musicais “fora da curva” que desafiam as regras tradicionais do gênero:
The Rocky
Horror Picture Show
(1975)
Se você quer distância de Dançando na Chuva, este é o ponto de partida perfeito.
Misturando ficção científica B, terror trash e muita libertação sexual, o filme acompanha um casal de noivos caretas que vai parar no castelo do cientista Dr. Frank-N-Furter.
As músicas são puro rock ‘n’ roll dos anos 70 e a atmosfera é tão caótica e teatral que é impossível confundi-lo com um musical tradicional da Broadway.
Hedwig - Rock,
Amor e Traição
(2001)
Em vez de coreografias ensaiadas, imagine um show de punk/glam rock em restaurantes de quinta categoria.
O filme conta a história de Hedwig, uma cantora de rock de Berlim Oriental que passou por uma cirurgia de redesignação sexual malfeita e caça o ex-namorado que roubou suas músicas.
A música aqui funciona como um desabafo visceral e narrativa de stand-up rock, longe de qualquer doçura hollywoodiana.
Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet
(2007)
Dirigido por Tim Burton, este longa substitui os sorrisos brilhantes por sangue, tortas de carne humana e uma Londres vitoriana completamente cinzenta.
Johnny Depp vive um barbeiro focado em vingança. As composições de Stephen Sondheim são complexas e sombrias; em vez de números de dança alegres, os personagens cantam enquanto cortam gargantas ou planejam crimes. É um banquete visual para fãs de terror.
Annette
(2021)
Se o seu problema com musicais é a falta de “Cinema de Arte”, o diretor francês Leos Carax resolve isso com uma das obras mais bizarras e hipnotizantes dos últimos anos.
Com trilha sonora da banda de art-rock Sparks, o filme acompanha a relação autodestrutiva entre um comediante de stand-up provocativo (Adam Driver) e uma cantora de ópera (Marion Cotillard) — e a filha deles, que é representada por uma marionete de madeira.
Quase todo o diálogo é cantado, mas de um jeito operístico, tenso e desconfortável.
BRUNO INÁCIO
Bruno Inácio é jornalista, mestre em comunicação e autor de “Desprazeres existenciais em colapso” (Patuá), “Desemprego e outras heresias” (Sabiá Livros) e “De repente nenhum som” (Sabiá Livros).
É colaborador do Jornal Rascunho, do Le Monde Diplomatique e da São Paulo Review e tem textos publicados em veículos como Rolling Stone Brasil e Estado de Minas Gerais.



