
O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que Washington lançará fortes ataques contra o Irã na noite desta quinta-feira, e que vai assumir o controle do setor petrolífero do país, assim como fez com a Venezuela, mencionando a tomada da Ilha de Kharg, um estratégico terminal para distribuição do combustível produzido por Teerã. A declaração do presidente americano acontece em um momento em que os países voltaram a trocar ataques na região, aprofundando a crise e afetando países alheios ao conflito.
"Os Estados Unidos atacarão o Irã (cuja Marinha, Força Aérea, radares, defesas aéreas e todas as outras formas de defesa, juntamente com a maior parte de sua capacidade ofensiva, DESAPARECERAM!), COM MUITA FORÇA ESTA NOITE", escreveu Trump naTruth Social. "Em algum momento num futuro não muito distante, tomaremos a Ilha de Kharg e outros pontos de infraestrutura petrolífera e assumiremos o controle total de seus mercados de petróleo e gás, assim como fizemos com a Venezuela, o que está se mostrando ótimo tanto para a Venezuela quanto para os Estados Unidos".
Trump tem repetidamente afirmado que atacaria a ilha de Kharg durante a guerra, intensificando suas ameaças para tentar forçar o Irã a concordar com suas exigências de encerrar o programa nuclear. O Irã tem consistentemente desafiado as ameaças do republicano, e não cedeu mesmo quando meios militares abrigados na ilha estratégica foram atingidos.
Fontes americanas ouvidas pelo New York Times afirmaram que os ataques lançados pelos EUA na quarta-feira e na quinta miraram radares, sistemas de defesa antiaérea e centros de controle de drones próximos ao Estreito de Ormuz, indicando uma tentativa de degradar a capacidade do país em detectar a movimentação de embarcações na rota marítima e atacá-las. Os ataques da quinta teriam sido mais extensos, em diferentes áreas do país.
Ainda assim, analistas apontam que o presidente americano tem escolhas difíceis a fazer. A avaliação de observadores externos é de que os EUA estão com estoques perigosamente baixos de armas de longo alcance, e que uma tomada da ilha de Kharg envolveria um risco elevado de baixas americanas. A maioria dos conselheiros de Trump se opõe a uma operação terrestre em grande escala para tentar derrubar o governo iraniano.
No caso da Venezuela, citado por Trump, a influência americana sobre o setor do petróleo do país não foi alcançado diretamente e apenas por força militar. Apesar da operação em janeiro, que resultou na captura de Nicolás Maduro do poder, Washington encontrou na vice-presidente Delcy Rodríguez uma voz "dialoguista" dentro do chavismo, que aceitou condições impostas por Washington para se manter no poder.
Em uma entrevista por telefone à rede americana Fox News após a publicação on-line, Trump pareceu mais hesitante sobre até onde pretende ir no ataque contra o Irã. O republicano afirmou que o cenário atual era "uma loucura" e que Teerã já estaria derrotado, mas "ainda não sabe". Acrescentou também que preferiria não atacar infraestruturas civis porque "o povo sofre".
— Minha preferência sempre foi tomar a Ilha de Kharg — disse o presidente. — Não sei se os EUA têm estômago para isso. Acho que eles gostariam de nos ver voltar para casa.
Comandantes militares dos EUA não costumam falar publicamente sobre operações futuras para evitar alertar o adversário ou comprometer a missão. Em uma coletiva de imprensa na quarta-feira, porém, o secretário de Defesa americano, Pete Hegseth — um crítico contumaz de jornalistas que perguntaram sobre planos futuros em outras ocasiões — defendeu o presidente, sugerindo que seria uma tática de pressionar negociações.
— O presidente Trump é um negociador, o melhor do mundo — disse Hegseth. — Ele está preparado para fechar esse acordo. O Irã faria bem em aceitá-lo. Caso contrário, teria que lidar com os tipos de planos que acabei de ter a oportunidade de ver dentro do Comando Central.
Escalada de tensões
Os EUA ampliaram a pressão no Oriente Médio desde o começo da semana. As Forças Armadas do país confirmaram um ataque a um terceiro navio-petroleiro no Golfo Pérsico, por supostamente tentar furar o bloqueio americano a portos iranianos. Três marinheiros de nacionalidade indiana morreram em decorrência dos ataques americanos às embarcações civis, em meio à mais recente troca de hostilidades.
Em um comunicado nesta quinta, o Comando Central dos EUA (Centcom) confirmou ter realizado um ataque contra o petroleiro Jalveer, de bandeira de Guiné-Bissau, acusando uma tentativa de cruzar o Golfo de Omã com petróleo iraniano. A confirmação veio pouco depois do Ministério das Relações Exteriores da Índia acusar os EUA de atacarem a embarcação, a terceira com tripulação indiana a ser alvejada nos últimos dias. Além do Jalveer, foram atingidos os cargueiros Marivex e Settebello — este último, onde três tripulantes foram mortos.
Délhi convocou o vice-chefe da missão da Embaixada dos EUA na capital indiana para apresentar um "forte protesto" pelo ataque que vitimou os trabalhadores. A Marinha Mercante indiana descreveu as mortes dos nacionais indianos como uma "perda irreparável".
A retomada dos ataques cruzados entre EUA e Irã e a confirmação de dano entre civis de países alheios ao conflito provocaram uma forte reação de atores internacionais, que pediram contenção. A China revelou "sérias preocupações" com a recente escalada, enquanto Rússia e Turquia pediram para que os dois países retomassem os esforços de paz. No mesmo sentido, a Arábia Saudita pediu uma desescalada e a volta do diálogo intermediado por Catar e Paquistão. Um porta-voz da diplomacia paquistanesa, no entanto, deu uma declaração afirmando ser "difícil permanecer otimista" diante das agressões renovadas.
A trégua entre Washington e Teerã, que foi desrespeitada em diversos momentos ao longo dos últimos meses, foi quebrada pela última vez na terça-feira, quando a Casa Branca acusou os militares iranianos de derrubarem um helicóptero americano perto da costa de Omã. Em resposta, o Pentágono autorizou disparos contra o território iraniano, que danificaram infraestruturas civis, incluindo centrais do sistema de abastecimento de água, que afetaram 200 mil pessoas.
O Irã retaliou com ataques contra posições americanas em países do Golfo, que a liderança em Teerã já havia afirmado considerar alvos legítimos em meio às hostilidades. A Guarda Revolucionária do Irã disse ter atingido alvos na Jordânia e no Bahrein, além de ter disparado contra posições no Kuwait. As autoridades do regime deram declarações em tom combativo nesta quinta.
O Ministério das Relações Exteriores do Irã emitiu um comunicado nesta quinta-feira afirmando que o cessar-fogo com os EUA se tornava "praticamente irrelevante" considerando os últimos fatos, enquanto a Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico — agência criada pelo regime iraniano no intuito de supervisionar o Estreito de Ormuz — afirmou que o tráfego pela via marítima ficaria completamente bloqueado até nova ordem.
"Devido às tensões provocadas pela agressão das forças americanas na região e ao anúncio feito na noite de ontem pelas Forças Armadas iranianas, o Estreito de Ormuz permanecerá fechado até nova ordem", anunciou a agência, que anteriormente havia aberto a possibilidade de tráfego de navios, desde que em coordenação com Teerã. (Com AFP e NYT)
Fonte : https://oglobo.globo.com/



