
Causa preocupação o alarmante consumo de ultraprocessados no Brasil, pois leva a falta de qualidade nutricional.
Embora a quantidade de comida tenha aumentado nos últimos anos, o consumo excessivo de alimentos ultraprocessados disparou, provocando uma epidemia silenciosa de sobrepeso e obesidade entre crianças e adolescentes.
Os dados são do estudo “Fome, obesidade e os novos desafios da alimentação no Brasil”, realizado pelo Nupens/USP (Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo) a pedido do Instituto Futuro é Infância Saudável (Infinis).
A pesquisa mapeou dados do Sisvan/SUS (Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional) entre os anos de 2021 e 2025.
O motor dessa transformação de peso é o padrão alimentar. Segundo o Sisvan, os alimentos ultraprocessados (como bolachas, salgadinhos e macarrão instantâneo) fazem parte da rotina de 77% a 89% das crianças e adolescentes do país.
O número é dramaticamente superior ao consumo diário de verduras e legumes, que oscila em patamares bem mais baixos (entre 64% e 73%).
“Com essa deficiência nutricional, a criança tem mais chance de desenvolver quadros de hipertensão, distúrbios gastrointestinais, câncer, colesterol, síndrome metabólica, e pode ter também uma abertura para compulsão alimentar, já que esses alimentos foram feitos para o consumo excessivo”, afirma Murilo Bomfim, pesquisador-colaborador do Nupens/USP, ao jornal Valor Econômico.
Bomfim ressalta que o sobrepeso gerado por esses produtos é uma nova forma de desnutrição. O jovem consome muitas calorias, mas quase nenhum nutriente essencial para o seu desenvolvimento pleno.
Os vilões além do prato
A preocupação médica vai além do açúcar e da gordura em excesso. De acordo com a Dra. Fabíola Suano, presidente do departamento de nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o próprio processo industrial de fabricação desses alimentos cria intermediários químicos tóxicos cujos impactos na saúde humana ainda não são totalmente compreendidos, mas que já se correlacionam ao aumento de diabetes e doenças cardiovasculares precoces.
A especialista do Nupens aponta que o consumo desses itens não atinge apenas as famílias de baixa renda — que às vezes os escolhem pelo preço mais acessível no mercado.
O ultraprocessado também virou sinônimo de “status” social, estimulado por propagandas massivas na TV e nas redes sociais, alcançando jovens de classes mais abastadas.
O apelo por regulação e o papel da escola
Para especialistas do setor, reverter esse cenário exige medidas rígidas do poder público.
Ana Andreotti, analista de projetos no Infinis, defende leis mais severas contra a publicidade infantil de alimentos nocivos e lamenta a pressão econômica das indústrias do setor (lobby), lembrando que os ultraprocessados conseguiram escapar do “imposto seletivo” durante as discussões da Reforma Tributária — com exceção apenas das bebidas adoçadas.
Como exemplos positivos de enfrentamento, Andreotti lembra que cidades como Rio de Janeiro e Niterói proibiram por lei a venda e distribuição de ultraprocessados dentro das escolas desde 2023.
Resgate à mesa e à cultura brasileira
Apesar do cenário preocupante, o Brasil conta com um escudo cultural importante.
O consumo de ultraprocessados na dieta nacional geral gira em torno de 18% a 20%, um índice bem menor do que os mais de 50% registrados em países como Estados Unidos e Reino Unido.
O brasileiro ainda valoriza o conceito de “comida de verdade” (o clássico prato de arroz, feijão, salada e proteína).
O desafio atual, segundo os pesquisadores, é afastar os jovens do isolamento das telas na hora das refeições.
O alimento ultraprocessado, por dispensar pratos e talheres, estimula o hábito de comer sozinho no sofá olhando para o celular, minando a experiência social, os laços familiares e o aprendizado que a cozinha e a mesa proporcionam desde a primeira infância.



