
A cúpula do Congresso Nacional vê em curso uma nova operação política do governo Lula para ocupar o comando da Vale e já fala em retaliação: a instalação de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para apurar interferência estatal na mineradora.
Na quarta-feira (22), acionistas vão eleger um novo conselheiro e o presidente do Conselho de Administração da companhia. Parlamentares ouvidos pela CNN Brasil apontam o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, como o principal operador do plano.
A atuação do ministro chegou aos próprios conselheiros. Segundo relatos feitos à CNN Brasil por integrantes do colegiado, Silveira telefonou pessoalmente a membros do conselho para pedir votos ao candidato apoiado pelo governo.
Um deles disse ter recebido uma ligação de cerca de dez minutos e afirmou que o ministro procurou os demais individualmente.
Procurado pela CNN Brasil, Silveira nega qualquer movimento nesse sentido.
A CNN Brasil procurou também o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães; o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP); e o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB); e aguarda posicionamento.
Renúncia e articulações
Para os congressistas, o movimento começou em junho, quando a Previ (o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil) articulou a destituição do presidente do Conselho de Administração da Vale, Daniel Stieler, considerado pelo governo federal alinhado à oposição e indicado ao colegiado pela própria Previ em 2021, ainda no governo Bolsonaro.
Stieler resistiu num primeiro momento. Na sequência, segundo relatos, foi apresentada a ele uma proposta de acordo de desligamento em valores expressivos, aceita e seguida de renúncia, formalizada em 6 de julho — cinco dias antes da assembleia que discutiria sua destituição.
Antes disso, em 22 de junho, o Ministério de Minas e Energia havia encaminhado ofício pedindo reunião com todos os conselheiros. O documento gerou mal-estar: o entendimento do colegiado é de que o interlocutor do Executivo com a companhia é o Comex, a área de comércio exterior do governo, e não o ministério.
A reunião não aconteceu.
Com a saída de Stieler, abriu-se a vaga na presidência do conselho, e o governo passou a atuar pela eleição de Manuel Lino Silva de Sousa Oliveira, conhecido como "Ollie", indicado oficialmente pela Previ. Ele disputa o posto com o conselheiro Marcelo Gasparino.
O plano em três etapas
O desenho que chegou ao Congresso prevê um movimento em etapas.
Eleito presidente do conselho, Ollie — que reside em Londres — trabalharia para assumir também a presidência do conselho da VBM (Vale Base Metals), sediada na capital britânica. Em seguida, ele renunciaria ao comando do conselho da Vale, permanecendo como membro do colegiado até abril de 2027.
A saída abriria espaço para o nome tido como preferencial do governo: José Maurício Pereira Coelho, apoiado pela Previ e considerado próximo à presidente do Banco do Brasil, Tarciana Medeiros. Outro nome citado é o de Bill Bruijn, ex-CEO da Anglo American no Brasil — concorrente global da Vale e empresa onde Ollie construiu a carreira.
Para que a engrenagem funcione, porém, Coelho precisa ser eleito conselheiro na mesma quarta-feira. Ele disputa a vaga com Ieda Gomes Yell, apoiada pela administração da companhia.
Com Ollie na presidência e Coelho no colegiado, o plano prevê que o primeiro indique o segundo para o comitê responsável por montar a lista de nomes que disputarão a eleição do conselho para o período de 2027 a 2029 — lista na qual Coelho entraria como favorito à sucessão.
Fontes do comitê executivo, que preferiram não se identificar, afirmam que a próxima mudança desejada pelo governo seria a substituição do CEO Gustavo Pimenta, diante de projetos que não teriam evoluído como combinado.
A CNN Brasil procurou a Vale e aguarda posicionamento.
Influência do governo Lula
A Previ detém 6,8% da Vale. A fatia não garante o controle da empresa, mas dá ao fundo poder relevante para articular votos.
A leitura de que a Previ funcionaria como instrumento de influência do governo já circula no mercado. Segundo documento obtido pela CNN Brasil, na deliberação do conselho, o único voto integralmente alinhado ao fundo foi o de Marcio Antonio Chiumento — que acumula os cargos de conselheiro da Vale e presidente da própria Previ.
Em 7 de julho, o Financial Times noticiou que investidores já enxergavam o risco de o Planalto usar o fundo para ampliar sua influência sobre a companhia.
A disputa também ganhou um parecer de peso. A ISS (Institutional Shareholder Services), maior consultoria de voto corporativo do mundo, recomendou que investidores institucionais rejeitem praticamente tudo o que a Previ pediu: apoio a Gasparino para a presidência e abstenção em relação a Ollie, além de voto favorável a Ieda Gomes Yell e abstenção quanto a Coelho.
Segundo a consultoria, em nenhum dos casos a Previ apresentou dado, indicador ou fato concreto que sustentasse a troca de comando.
Não é a primeira investida. Desde 2023, o governo tentou, sem sucesso, emplacar aliados no comando da Vale, entre eles o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega.
A definição do novo comando será o principal termômetro da correlação de forças dentro da companhia.
Se Ollie for eleito, a Previ sai fortalecida politicamente.
Se o conselho construir uma solução alternativa, a leitura será de resistência à tentativa de ampliar a influência do fundo sobre a governança da mineradora.
Fonte : https://www.cnnbrasil.com.br/



