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Vorcaro se dispôs a contar possível relação com Andrei Rodrigues a gabinete de Mendonça

Interlocutores da PF ironizam e dizem que eventual relato teria “páginas em branco”, pois diretor-geral e banqueiro não teriam vínculo algum

03 de setembro de 2026 às 18:19
Vorcaro se dispôs a contar possível relação com Andrei Rodrigues a gabinete de Mendonça
Vorcaro disse ter relação com Andrei (foto) em depoimento ao gabinete de Mendonça sem a presença de agentes da PF

BRASÍLIA - O dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, se dispôs a detalhar sua relação com o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, ao gabinete do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça. A informação foi confirmada a O TEMPO Brasília por pessoas a par do teor do depoimento do banqueiro ao gabinete de Mendonça há uma semana.

Em audiência, no dia 27 de agosto, no 19º Batalhão de Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF), a Papudinha, sem a presença de agentes da PF, Vorcaro garantiu a um juiz auxiliar de Mendonça e a um representante do Ministério Público Federal (MPF) que teria uma relação com Andrei. A oitiva foi revelada pela colunista do jornal “O Globo” Bela Megale.

Interlocutores da PF minimizaram, em conversa com a reportagem de O TEMPO Brasília, a relação alegada por Vorcaro. Um deles até ironizou e afirmou que um eventual relato do banqueiro teria “páginas em branco”, pois o vínculo entre ele e Andrei é “zero”. A reportagem procurou o diretor-geral da PF e o advogado Daniel Bialski, mas, até a publicação desta matéria, ambos não se manifestaram. O espaço segue aberto.

Em relatório enviado a Mendonça, encomendado pelo próprio ministro para identificar “integrantes da suposta rede de influência e monitoramento” de Vorcaro, a PF afirmou que não encontrou um número de telefone denominado “Andrei” ou “Andrei Passos” salvo entre os contatos do banqueiro, mas citou menções a alguém que “pode se tratar de Andrei Passos”.

O convite para o fórum jurídico em Londres

Em 3 de abril de 2024, a poucos dias da primeira e única edição do fórum jurídico “Brasil de Ideias”, patrocinado por Vorcaro em Londres, Inglaterra, o ex-ministro das Comunicações do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e ex-deputado federal, Fábio Faria, teria encaminhado ao banqueiro uma pergunta de um terceiro, questionando se poderia “convidar o DPF Andrei”.

Cinco minutos depois, Faria teria enviado mais uma mensagem do interlocutor, comunicando que o diretor-geral da PF havia aceitado. “Podem entrar em contato lá na PF”, acrescentou. O interlocutor do ex-deputado federal seria um ministro, pois, paralelamente à conversa com o ex-ministro, Vorcaro avisou a um contato salvo como “Marcio Conjur” que o “ministro fez convite ao Andrei PF”.

No dia seguinte, Marcio teria encaminhado a Vorcaro mensagens atribuídas a uma assistente de Andrei, que fazia uma consulta sobre “questões logísticas”. “Algum custo (hospedagem, passagem) é coberto pelos organizadores?”, perguntou ela. O contato salvo como “Marcio Conjur”, então, teria lhe respondido que sim. “Todas as despesas bancadas por nós.”

O diretor-geral da PF também teria sido convidado para a segunda edição do “Brasil de Ideias”, que viria a ser cancelada. Em 10 de março de 2025, uma auxiliar de Vorcaro teria lhe dito que “o Andrei PF precisa de um convite formal para aceitar Londres”. “Pra entrar (na) agenda institucional dele”, justificou ela. O banqueiro a autorizou a pedir para o organizador oficial do fórum, grupo Voto, mandar o convite.

Mensagens de Vorcaro antes de ser preso teriam citado 'Andrei'

Andrei ainda teria sido mencionado por Vorcaro em mensagens enviadas a um contato atribuído pela PF ao ministro Alexandre de Moraes. Em 15 de novembro de 2025, dois dias antes de ser preso, o banqueiro teria perguntado a Moraes se “Paulo” ou “Andrei” não poderiam ajudá-lo com algo. “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei?”, questionou.

No dia seguinte, às vésperas da 1ª fase da operação Compliance Zero, Vorcaro teria insistido e pedido a Moraes para tentar “sensibilizar” o diretor-geral da PF para algo. “Se Andrei conseguir atrasar para outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível”, apelou.

O relatório da PF, cujo sigilo foi derrubado por Mendonça na última terça (1º/9), reúne dados brutos e informações localizadas no acervo probatório da Compliance Zero. A própria instituição ponderou que não foram realizadas “diligências tipicamente policiais destinadas à apuração de condutas que, em tese, possam configurar ilícitos penais”.

Banqueiro relatou 'graves intimidações'

Vorcaro se dispôs a contar sua relação com Andrei em depoimento solicitado pela própria defesa. Em esclarecimento, nessa quarta (2/7), Mendonça afirmou que o banqueiro relatou ter sofrido “graves intimidações”. “Trata-se de ato processual regular, conduzido por juiz auxiliar”, ponderou, negando que a ausência de agentes da PF tenha sido uma “escolha de conveniência”.

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, defendeu o arquivamento das supostas intimidações relatadas por Vorcaro. Segundo o portal “g1”, Gonet alegou que o banqueiro “não notificou fato concreto ou juridicamente delimitado capaz de impulsionar providências investigativas próprias, tampouco conferiu o mínimo elemento de verossimilhança às assertivas ali formuladas”.

Relação desgastada entre Andrei e Mendonça

Vorcaro depôs diretamente ao gabinete de Mendonça em meio à escalada da crise entre o ministro e o diretor-geral da PF. A relação começou a se esgarçar logo que o relator herdou o caso do ministro Dias Toffoli, quando limitou a Diretoria de Inteligência a compartilhar apenas com os delegados responsáveis pelo inquérito as informações obtidas.

A opção de Mendonça bloqueou o acesso de Andrei à investigação. À época, o ministro justificou que os agentes da PF deveriam respeitar a compartimentação de informações para evitar vazamentos. “A necessidade de compartimentação está diretamente relacionada aos princípios da preservação do sigilo e da funcionalidade”, argumentou.

O relator reforçou a necessidade de compartimentação ao encomendar, no último dia 24, o novo relatório da PF, com menções ao diretor-geral. Mendonça reiterou que os agentes deveriam considerar a “compartimentação própria às atividades de inteligência e de polícia judiciária”, o “princípio da preservação do sigilo” e o “princípio da funcionalidade”.

O desgaste de Andrei e Mendonça se aprofundou quando o ministro enrijeceu a supervisão do inquérito das supostas fraudes em aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Após a PF trocar a coordenação do inquérito sem avisá-lo, o relator exigiu que qualquer ato administrativo fosse informado previamente a seu gabinete.

Interlocutores da PF enxergaram a decisão de Mendonça de enrijecer o controle do caso como uma tentativa de avançar sobre a autonomia da instituição. O argumento é que a designação de agentes de uma investigação é um tema interna corporis e que o controle externo do inquérito é uma competência do Ministério Público Federal.

Fonte: https://www.otempo.com.br/

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