
O Senado aprovou nesta quarta-feira (14) a proposta de emenda à Constituição (PEC) que acaba com a jornada de trabalho 6x1 – seis dias de trabalho para um de descanso. Com a mudança na legislação, o trabalhador agora terá dois dias de folga na semana, para cada cinco trabalhados, sem redução de salário. A medida gerou amplo debate no setor produtivo e entre trabalhadores. As discussões costumam se concentrar sobre emprego, produtividade e crescimento econômico.
Repasse do custo para o preço do produto final, empregabilidade e produtividade do trabalhador descansado também entram na conta. Dados do Ministério do Trabalho, via RAIS, mostram que aproximadamente 74% dos trabalhadores celetistas (regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho - CLT) possuem jornada de 44 horas semanais. Para esse grupo, a migração para 40 horas implica aumento próximo de 10% no custo do horário de trabalho. Segundo estimativas do Ipea, o custo médio do trabalho celetista aumentaria cerca de 7,8%.
Confira análises sobre as mudanças da jornada e os impactos, positivos e negativos, na economia
Letícia Moschioni, sócia da Finscale
“O fim da escala 6x1 pode acelerar a modernização do varejo brasileiro. Com vendas praticamente estáveis em agosto, aumentar preços não será suficiente para compensar os novos custos. Estimo que apenas 20% a 30% do custo adicional efetivo seja repassado aos consumidores em 2027, enquanto o restante deverá ser compensado por ganhos de produtividade ou absorvido pelas margens. Nesse cenário, o impacto líquido sobre o IPCA poderá ficar próximo de 0,05 ponto percentual. Nas empresas listadas na B3, como Magazine Luiza (MGLU3) e Lojas Renner (LREN3), a mudança tende a ampliar a atenção dos investidores à eficiência operacional e à capacidade de preservar margens. Um estudo da XP estima, em um cenário sem repasse de custos, impacto médio de 8% sobre o EBITDA e de 18% sobre o lucro líquido das varejistas analisadas. Isso pode acelerar investimentos em automação, gestão de equipes, pagamentos digitais e serviços financeiros integrados. As companhias que conseguirem aumentar a receita por hora trabalhada poderão transformar a reorganização da jornada em uma vantagem competitiva”
Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco
“A queda de 4,2% nas vendas de móveis e eletrodomésticos em agosto revela como o consumidor continua sensível aos preços e ao custo do financiamento. Nesse ambiente, o fim da escala 6x1 não deve provocar um repasse integral das despesas ao varejo. Minha estimativa é que entre 25% e 35% do custo adicional possa chegar aos preços em 2027, enquanto a maior parcela deverá ser compensada por produtividade ou absorvida pelas empresas. Com esses ajustes, o impacto líquido sobre o IPCA poderá ficar próximo de 0,08 ponto percentual. A redução da jornada também pode redistribuir o consumo ao longo da semana, especialmente em lazer, serviços e comércio de proximidade. Entretanto, o ganho de tempo livre não significa necessariamente maior poder de compra. Para que a mudança estimule o mercado, será fundamental preservar a renda real das famílias e criar condições para a redução dos juros, que continuam influenciando diretamente as decisões de consumo”.
Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos
“Na minha avaliação, o fim da escala 6x1 pode trazer benefícios sociais, mas sua implementação em um momento de consumo enfraquecido tende a pressionar mais as empresas do que estimular o varejo. Com a demanda ainda limitada, acredito que a maior parte do aumento dos custos será absorvida pelas margens, já que o comércio terá pouco espaço para repassar reajustes aos consumidores. O impacto direto sobre a inflação deve ser relativamente moderado, especialmente se houver ganhos de produtividade, mas isso não significa ausência de consequências econômicas. Pequenos varejistas, que operam com margens apertadas, poderão reduzir contratações, investimentos e até horários de funcionamento, enquanto grandes redes terão mais capacidade de adaptação. Vejo, portanto, um risco de concentração de mercado e enfraquecimento do emprego formal, sem garantia de crescimento proporcional do consumo. Para os investidores, a mudança reforça a preferência por empresas eficientes, pouco endividadas e com maior capacidade de preservar margens”.
André Matos, CEO da MA7 Capital.
“O varejo ficou praticamente parado em agosto. As vendas subiram apenas 0,1% em relação a julho e 0,4% em relação a agosto do ano passado. A queda de 4,2% em móveis e eletrodomésticos mostra que o consumidor está evitando compras que dependem de crédito. É nesse cenário que as empresas terão de se adaptar ao fim da escala 6x1, aprovado ontem pelo Senado. A jornada cai de 44 para 42 horas dois meses depois da promulgação e chega a 40 horas um ano depois. Por isso, em 2027 o comércio deve sentir apenas parte do custo. Com a demanda fraca, não vejo espaço para repassar tudo aos preços. A tendência é que a maior parte seja absorvida pelas margens, principalmente nas empresas menores. As estimativas de impacto ainda são muito diferentes. Pelas contas do Ipea, mesmo que todo o custo fosse repassado, os preços no comércio subiriam cerca de 1%. Já a CNI fala em alta média de 6,2%. Nenhuma das duas converte isso em pontos do IPCA, e qualquer número preciso hoje seria especulação. O que dá para afirmar é que, se as empresas ganharem produtividade, com escalas mais bem organizadas e mais tecnologia, o efeito na inflação deve ficar mais perto da estimativa do Ipea. Para o mercado, o efeito imediato é margem mais apertada no varejo e mais cautela para contratar e investir, até que as empresas entendam o tamanho do novo custo”.
Fábio Murad, consultor da Wiser Asset
“A discussão sobre o fim da escala 6x1 acrescenta uma pressão doméstica a um cenário global influenciado pelos juros americanos, pelo câmbio e pelas expectativas de inflação. Com o varejo crescendo somente 0,1% em agosto, o espaço para reajustes permanece limitado. Estimo que entre 35% e 45% do custo adicional efetivo possa ser repassado aos preços em 2027, enquanto o restante deverá ser compensado por produtividade ou absorvido pelas margens. Nesse cenário, a pressão líquida sobre o IPCA poderá chegar a aproximadamente 0,12 ponto percentual. Na B3, o impacto poderá ser percebido principalmente na avaliação das varejistas. Um levantamento do BTG Pactual aponta que a redução da jornada pode comprimir as margens do setor em cerca de 1 ponto percentual e reduzir o EBITDA em aproximadamente 10%, mesmo considerando ganhos de eficiência. Para investidores, isso significa acompanhar de perto a capacidade de geração de caixa e a rentabilidade de companhias como Magazine Luiza (MGLU3) e Lojas Renner (LREN3). Caso a mudança também pressione as expectativas de inflação, os juros poderão permanecer elevados por mais tempo, influenciando o valor das ações. Por outro lado, ganhos consistentes de produtividade podem reduzir essa pressão e favorecer uma recuperação das empresas mais eficientes”.
Jarbas Martins, especialista em gestão de negócios e fundador da JM Consultoria
“A discussão sobre o fim da escala 6x1 e a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, sem redução salarial, acende um alerta para os empresários. Dependendo da atividade, manter a operação funcionando com menos horas disponíveis pode exigir novas contratações e elevar custos. Mas isso não significa que o aumento de despesas seja inevitável em todos os casos, nem que a rentabilidade esteja necessariamente ameaçada. Diante desse cenário, o desafio dos empresários é transformar a adaptação em um processo planejado, com diagnóstico, simulações financeiras e revisão das operações. O primeiro passo é conhecer os próprios números. Antes de contratar mais pessoas ou alterar escalas, o empresário precisa entender onde estão os custos e como o trabalho é realizado. Quais atividades exigem cobertura contínua? Existem horários com baixa demanda? Há tarefas que poderiam ser simplificadas, processos redundantes ou tempo perdido entre etapas? Quais áreas dependem efetivamente de mais profissionais? Mapear essas questões ajuda a identificar oportunidades de reorganização e a simular os impactos de diferentes modelos de jornada. Indicadores como produtividade por hora, vendas por funcionário, horas extras e custos por turno são importantes para orientar decisões”.
Márcio Reis, assessor contábil e tributário
“Quando avaliamos o impacto da medida e da nova legislação sobre a cidade de Belo Horizonte, é importante observar quatro aspectos relevantes: Economia centrada em serviços: a economia da capital mineira é focada em serviços, com destaque para turismo de negócios e eventos, que sustentam cadeias densas de alimentação (como o consumo fora do lar) e hospedagem (com vários hotéis no centro de Belo Horizonte, na região da Savassi, de Lourdes, do Santa Teresa e no entorno do Mercado Central). Varejo alimentar de bairro: o setor inclui supermercados, padarias, farmácias e restaurantes em geral, que operam de maneira muito enxuta numa escala de seis por um (a escala tradicional existente há décadas). Perfil de micro e pequenas empresas: existe um predomínio de micro e pequenas empresas num bojo que compõe mais de 40 mil empresas apenas no comércio de bares e restaurantes de Belo Horizonte, sendo um segmento muito afetado em função da implementação e da transição. Capacidade de adaptação assimétrica: coloca-se a questão de como o comércio de Belo Horizonte vai planejar-se para que a nova metodologia de trabalho imposta pelo governo às empresas em relação aos empregados possa gerar o menor risco possível aos empregadores, maximizar os ganhos para os empregados sem afetar a lucratividade, a produtividade e a própria existência e continuidade desses comércios na cidade.”
Maria Candida Baumer, CEO da People & Results, mestre em Cultura Organizacional (COPPEAD-UFRJ) e PhD em Carreira (The Netherlands)
“A discussão sobre a redução da jornada costuma focar na manutenção dos salários para uma carga horária cerca de 9% menor. Mas, o verdadeiro desafio é a reorganização estrutural do trabalho. O impacto não será uniforme e dependerá do setor, do modelo de negócio e da maturidade de gestão de cada empresa. Como em outras mudanças trabalhistas do passado, o mercado passará por adaptação, dividindo-se em duas realidades: Trabalho cognitivo e intelectual: organizações focadas em serviços analíticos sentirão menos a mudança. Como "horas de presença" nem sempre equivalem à produtividade total, a adoção paralela de Inteligência Artificial deve compensar a redução de horas sem afetar as entregas. Trabalho intensivo em homem/hora e presencial: em setores como comércio físico, restaurantes, hotelaria, segurança e manutenção, onde o serviço é prestado no momento do consumo e não pode ser estocado, o desafio dos 9% é real.
Haverá um aperto imediato de margem e incentivo para mais automação no médio prazo, similar ao movimento das redes de restaurantes ao trocar caixas por totens de autoatendimento. Se no curto prazo o desafio recai sobre a gestão e a tecnologia, no médio prazo a consequência mais grave atinge a base da pirâmide, ou seja, na redução das vagas de entrada para profissionais com menor qualificação formal ou de vida.
Esse movimento marca uma virada no mercado de entrada. No passado, estagiários e aprendizes buscavam vagas pelo aprendizado em si. Hoje, essas posições contam com pacotes de benefícios e condições que antes eram exclusivos de trainees. Com o custo do trabalho mais alto e a jornada reduzida, o pêndulo muda de lado novamente: as empresas cobrarão entregas e produtividade imediatas, encurtando o espaço de formação na base do mercado.”
Antonio Patrus, CEO da Bossa Invest
“A alta de apenas 0,1% nas vendas do varejo em agosto revela um consumidor mais seletivo, que continua comprando, mas avalia com maior cuidado onde comprometer sua renda. O recuo de 4,2% nas vendas de móveis e eletrodomésticos reforça essa diferença de comportamento: produtos de maior valor e compras que podem ser adiadas tendem a sentir mais os efeitos dos juros elevados e das restrições orçamentárias. Não significa necessariamente uma perda generalizada de confiança, mas uma recuperação do consumo que ainda encontra limites no poder de compra das famílias. Para o comércio, o desafio é deixar de depender exclusivamente de descontos para atrair clientes. Será necessário melhorar a experiência de compra, oferecer condições de pagamento compatíveis com a renda e utilizar dados para compreender o comportamento do consumidor. Uma recuperação consistente dependerá da combinação de inflação controlada, crédito mais acessível e crescimento da renda real. Esse ambiente também abre espaço para o venture capital, especialmente em startups que desenvolvem soluções de inteligência artificial, pagamentos, logística e personalização do atendimento. A inovação pode ajudar o varejo a aumentar a produtividade e vender melhor, mesmo antes de uma aceleração mais expressiva do consumo".
Roberto Jalonetsky, CEO da Speedo Multisport.
“O crescimento de apenas 0,1% nas vendas do varejo mostra que o consumo brasileiro ainda enfrenta dificuldades para ganhar força. Apesar da recuperação em relação ao mês anterior, o resultado abaixo das expectativas indica que o consumidor continua cauteloso na hora de gastar. Para o comércio, isso representa um desafio importante. As empresas precisam lidar com consumidores mais seletivos, que pesquisam preços, priorizam necessidades e avaliam melhor cada compra. No setor de artigos esportivos, percebemos a importância de oferecer produtos que combinem qualidade, funcionalidade e preços competitivos. O principal impacto desse cenário está na necessidade de adaptação do varejo. Mais do que vender, as empresas precisam entender as mudanças no comportamento do consumidor e encontrar formas de manter a competitividade. O crescimento sustentável do setor depende, sobretudo, da recuperação da confiança e do poder de compra das famílias”.



