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O Brasil visto da cabine: rumo, performance, autonomia, terreno e também altitude

Por Luiz Carlos Rodrigues Busa, piloto PP códidgo ANAC 524330 e pridente da Sata Casa de Ituverava

05 de novembro de 2026 às 16:16
O Brasil visto da cabine: rumo, performance, autonomia, terreno e também altitude
Além de empresário, Busa também é piloto de avião

Tenho 75 anos, estou há 56 anos à frente da gestão de uma indústria brasileira e piloto aviões há mais de meio século.

Nos tempos da navegação analógica aprendi regras simples que talvez também sirvam para administrar um país.

Rumo: saber para onde queremos ir A primeira era: Rumo é rumo.

Se a bússola indicava determinado rumo para chegar ao destino, era preciso mantê-lo, corrigindo vento, chuva e turbulência sem perder a direção.

O Brasil também precisa saber onde pretende chegar. Educação, produtividade, infraestrutura, equilíbrio fiscal, redução da pobreza e desenvolvimento tecnológico deveriam formar um rumo nacional de longo prazo, independentemente das mudanças de governo.

Performance: produzir mais e melhor A segunda regra era conhecer a performance

da aeronave.

Na economia, essa performance é a produtividade.

Não basta distribuir melhor aquilo que já produzimos.

Uma sociedade eleva permanentemente seu padrão de vida quando consegue produzir mais e melhor, com pessoas mais qualificadas, tecnologia e investimento.

Imagine um sapateiro que fabrica 100 pares por semana. Se quisermos ampliar o acesso aos sapatos, podemos redistribuir renda em determinadas circunstâncias.

Mas existe uma solução estrutural: permitir que esse sapateiro produza 150 ou 200 pares com melhores equipamentos e maior produtividade.

Produzindo mais por unidade de trabalho e capital, abre-se espaço para melhores salários, preços competitivos, novos investimentos e maior arrecadação.

Autonomia: combustível para completar a viagem A terceira regra é a autonomia.

Um avião pode estar no rumo correto e ter excelente desempenho, mas não chegará ao destino se não houver combustível - incluindo reserva para uma alternativa.

Na economia, essa autonomia é fiscal.

Em agosto de 2026, a dívida bruta do governo geral alcançou 82,9% do PIB, enquanto os juros nominais do setor público acumulados em doze meses chegaram a R$ 1,182 trilhão, ou 8,86% do PIB.

Para quem administra uma indústria, isso chega ao chão da fábrica. Se uma empresa possui margem de 8% ou 10% e precisa financiar uma expansão a taxas muito superiores a isso, muitos projetos deixam de fazer sentido.

Sem investimento, a capacidade produtiva cresce menos.

Sem capacidade produtiva e produtividade, o país também cresce menos.

Terreno: a realidade não desaparece porque discordamos dela

Há ainda o terreno.

Montanhas não desaparecem porque o piloto discorda delas.

Na economia também existem realidades que independem de ideologia: dívida precisa ser financiada, empresas precisam de retorno para investir, famílias precisam de renda, pessoas vulneráveis precisam de proteção e educação leva anos para formar trabalhadores qualificados.

O mercado de trabalho brasileiro mostra justamente essa complexidade. Em 2025, a taxa anual de desemprego caiu para 5,6%, a menor da série do IBGE, mas ainda havia 16,6 milhões de pessoas subutilizadas e informalidade de 38,1%.

Isso mostra que o desafio não é apenas criar empregos. É aproximar educação, capacitação e necessidade real das empresas.

Altitude: nem baixo demais, nem alto demais e existe a altitude.

Voar baixo demais pode levar uma aeronave contra uma montanha.

Voar alto demais pode colocar o avião fora de sua faixa adequada de desempenho.

Na economia, penso da mesma maneira sobre o Estado.

Um Estado incapaz de oferecer educação, saúde, segurança, infraestrutura e proteção básica não prepara o país para o futuro.

Mas um Estado maior do que a sociedade consegue financiar de forma sustentável pode pressionar dívida, impostos e investimento.

“Qual Estado o Brasil precisa e consegue sustentar para chegar ao destino desejado?”

Voltei recentemente da China, depois de seis anos sem visitá-la.

Percorri milhares de quilômetros pelo interior e por grandes centros.

Mantenho relações industriais com aquele país há vinte anos e desta vez voltei particularmente impressionado com sua infraestrutura, indústria, tecnologia e capacidade de execução.

Não acredito que o Brasil deva copiar a China. Precisamos construir nosso próprio modelo.

Deveríamos recuperar algo essencial: capacidade de planejar e executar durante décadas.

Um Plano de Voo para o Brasil

Para transformar essa reflexão em algo prático, proponho imaginarmos um verdadeiro Plano de Voo Brasil, com um painel público de resultados que sobreviva aos governos.

A cada ano poderíamos perguntar simplesmente: estamos mais perto ou mais longe do destino?

Não seria um plano de direita ou de esquerda.

Seria um plano de país.

Depois de 56 anos administrando uma indústria e mais de meio século pilotando aeronaves, aprendi que periência não elimina tempestades.

Ela apenas ensina a respeitar os instrumentos e também antecipar problemas.

Um avião não negocia com a física.

Uma economia, no longo prazo, também não negocia com a realidade.

O Brasil possui recursos naturais, agricultura, indústria, empresários, trabalhadores e capacidade humana. O potencial existe.

Precisamos definir o rumo, melhorar a performance, preservar a autonomia, conhecer o terreno e escolher também a altitude correta.

E, principalmente, iniciar a correção antes que a montanha esteja diante do para-brisa.

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