Psicanalista aborda sofrimentos mais comuns da adolescência

A adolescência é um período difícil e conturbado. Quem já passou dos vinte anos deve se recordar bem do sentimento de estar deslocado e de que ninguém entende o que é dito.
A OMS (Organização Mundial da Saúde) define o início da adolescência aos 10 anos, período conhecido como pré-adolescência que vai até os 14, e dos 15 aos 19 como adolescência propriamente dita. É um período em que o indivíduo deixa de ser criança e é introduzido à sexualidade. “Não por uma decisão familiar, mas simplesmente devido ao fato de sua maturidade biológica”, explica Charles Melman, psicanalista francês e um dos fundadores da Associação Lacaniana Internacional e um dos principais seguidores de Freud e Lacan.
Melman, que esteve presente no 3º Congresso LIV Virtual, pontuou que adolescentes são biologicamente adultos, mas social e psicologicamente crianças e, por isso, vivem neste lugar de desconforto constante.

Fases da vida
O psicanalista lembrou que esta fase da vida escapa até mesmo ao olhar de romancistas. E fez um desafio: que escrevam, a partir de suas próprias experiências, romances positivos sobre a adolescência. Vão perceber o quanto é difícil. “O adolescente procura o lugar dele e não acha. Se sente abandonado e só, e tem a impressão de que ninguém o compreende”, disse.
Grande parte dessas razões de desconforto tem origem na cultura, define o psicanalista. É a partir de determinadas percepções sociais e morais que o adolescente se enxerga no mundo.

Sexualidade
Ao entrar na sexualidade, por exemplo, o adolescente não é autorizado a exercê-la como adulto e este é um dos motivos, de acordo com Melman, para que ocorra esse descompasso. Ele contextualiza que em algumas culturas é comum que os jovens iniciem a vida sexual como forma de prepará-los para o casamento, algo que não é mais visto como possível ou sequer aceitável na cultura ocidental.
A adolescência é também um período em que o jovem rompe vínculos com o núcleo familiar e passa a expandir suas relações. E, dentro desse contexto, acontece uma perda de autoridade, tanto da própria família quanto de outras esferas de poder. “Não há autoridade moral, religiosa, de ensino que ele respeite, pois nenhuma delas leva em conta seus desejos e a incapacidade de satisfazê-los de maneira honrada”, disse o psicanalista.

Escola
A escola, neste período, desempenha um papel significativo. É lá onde os adolescentes podem encontrar grupos de amigos e amigas que lhes permitem ter uma “vida paralela e autônoma que lhe torna a existência suportável”, argumenta Melman.
Neste lugar onde pode compartilhar com os seus semelhantes suas dores, frustrações e incertezas é que encontra uma autonomia na palavra, ou seja, possibilidades de expressão. Se em casa ele deixou de ser criança, não existe lugar onde esses sofrimentos podem ser reconhecidos.

A atitude escolar faz parte de uma atitude cultural

O psicanalista ressalta que a patologia do adolescente não é fisiológica, mas sim cultural. A reflexão a ser feita é sobre como apontar para o adolescente que ele não é um “estrangeiro” e que, tanto membros da família, quanto educadoras e educadores, já passaram por esse processo e, por isso, também não são estrangeiros. “Todo mundo conheceu essa crise”, disse o psicanalista.
Melman, que ainda atende em consultório, incluindo adolescentes, considera positivas essas sessões. Não por conta de sua própria intervenção, mas devido à transferência, elemento importante na análise que permite ao paciente projetar seus pensamentos e sentimentos. Ele entende as sessões como uma espécie de lugar seguro.
“Quer dizer que há um lugar onde tem alguém que tem um saber sobre os tormentos e dificuldades deles e que então os adolescentes possam buscar com ele um caminho pessoal para que possam sair desse estado de sofrimento”, afirmou.
Apesar dessa possibilidade individual de lidar com os sentimentos e sofrimentos, o psicanalista aponta que ela não deve impedir uma resposta cultural sobre o problema e que determinadas exigências em relação aos adolescentes devem ser tratadas de outra forma, e não segundo visões ultrapassadas da sociedade.