Psicóloga alerta sobre jovens que passam boa parte do dia no quarto

Jovens-geração do quarto. No destque a psicóloga Grazyella Eduarda da Cruz

Segundo Grazyella Eduarda da Cruz, este comportamento oferece muitos riscos à saúde mental

Mesmo antes do início da pandemia, já era fácil encontrá-los, com os olhos grudados no celular, na televisão ou no computador. Os brasileiros de 11 a 18 anos, que passam ao menos seis horas por dia trancados em seus quartos, já representam 75% dessa faixa etária, segundo estudo feito pelo neuropsicólogo e pesquisador Hugo Monteiro Ferreira. O que eles têm em comum, além de ocuparem boa parte de seu tempo em jogos, aulas on-line, seriados e redes sociais, é que são psicologicamente adoecidos, socialmente fragilizados e mais suscetíveis à autolesão e ao suicídio.
Em entrevista concedida à Tribuna de Ituverava, Grazyella Eduarda da Cruz, psicóloga clínica de adolescentes e adultos e psicóloga do Internato de Medicina da Santa Casa de Ituverava, fala sobre a questão. “Adolescência é uma fase de transformações e descobertas entre a infância e a vida adulta, que traz aspectos que merecem a nossa atenção e cuidado. Não é de hoje que percebemos que essa nova geração de crianças e adolescentes já nasceu muito mais desenvolvida e ágil quando o assunto é tecnologia, em muitos sentidos concordamos que ela surgiu para facilitar nossas vidas, porém, em relação aos adolescentes, que muitas vezes se isolam e passam horas conectados aos meios eletrônicos, já não podemos dizer o mesmo”, alerta.
“O que se vive por trás de uma tela pode parecer muito mais atrativo e animador: a ausência de problemas reais, a fuga da realidade através dos eletrônicos e a possibilidade de criação de um novo ‘eu’, construído de forma que as pessoas não consigam enxergar suas fragilidades e fraquezas. Assim, a vida real deixa de ter graça e sentido e o desejo por se isolar cresce e ganha forma”, explica.
Ainda segundo ela, são grandes os prejuízos proporcionados por esse comportamento, como baixa tolerância à frustração e aumento do bullying ou cyberbullyng, o que potencializa as chances de depressão e suicídio na adolescência.
“No meio eletrônico, tudo se tornou imediatista, na ‘palma da mão’. Com isso, a possibilidade de se desenvolver ansiedade também é grande, assim como distorção da própria imagem, que propicia transtornos alimentares (anorexia, bulimia e compulsão alimentar) e outras dependências, como uso excessivo de álcool e drogas”, afirma.

Redobrar a atenção

Grazyella lembra que cabe aos adultos redobrar a atenção para o ambiente em que o adolescente vive. “Devemos nos questionar o quão saudável é esse lar e como estão sendo construídas as referências diretas dentro de casa. Também podemos ser grandes responsáveis por tais comportamentos desses adolescentes, afinal, ainda usamos aquela antiga frase ‘adolescência, fase difícil’ e, assim, acabamos por acreditar que, dentro de seus quartos estarão mais seguros e serão mais fáceis de lidar”, ressalta.
A psicóloga também enumera alguns questionamentos que podem ser feitos para buscar soluções para o problema. “Alguns deles são: por que seria mais interessante passar horas em frente a uma tela do que interagir com a minha família? Como estão sendo os diálogos entre os familiares? Existe compreensão dos pais e ou responsáveis diante das incertezas e dúvidas desse adolescente? Qual acolhimento esse adolescente recebe ao apontar questões que se divergem daquelas que o adulto acredita?”, pontua.
“Uma relação familiar saudável inclui comunicação não violenta, troca de confiança e respeito, participação ativa dos responsáveis, criação de tarefas e atividades em família e interesse em estar junto (mesmo que cansados, demonstrando a importância um do outro), para que assim, unidos, possam viver de forma assertiva, prazerosa e saudável essa linda fase da vida”, completa.

Um a cada três alunos em todo o mundo já foi vítima de bullying

Pesquisa da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) revelou que um em cada três alunos em todo o mundo foi vítima de bullying, com consequências arrasadoras no desempenho escolar, na saúde física e mental.
“Não dá para dizer que a escola é um parâmetro para saber se a pessoa pertence à geração do quarto porque ela omite e mascara sofrimentos psicológicos. Antes de existir o ciberbullying, esse tipo de violência já estava presente em todas as escolas, diante dos olhos de muitas testemunhas, e isso não mudou”, diz o neuropsicólogo Hugo Monteiro Ferreira.
O levantamento mostrou que 25% das vítimas disseram que o motivo foi a aparência física; 25%, por causa de gênero e orientação sexual; e outros 25% mencionaram que os ataques estavam associados ao seu país de origem. “O bullying tem efeitos devastadores”, diz o especialista. As crianças e adolescentes que sofrem bullying estão mais sujeitos a terem depressão, solidão ou ansiedade, autoestima baixa, pensamentos suicidas ou a tentarem o suicídio, ainda segundo informações da Unesco.

Escola

Se, de um lado, a escola pode ser o palco da agressão que será um gatilho para problemas psicológicos, de outro, ela pode ser um apoio importante. O Centro Universitário Una, por exemplo, tem um projeto para dar apoio aos alunos. O Entrelaço capacita professores para que eles possam identificar potenciais casos de depressão ou outros problemas de saúde mental entre os alunos.
“Nós formamos multiplicadores. Os professores estão em um lugar privilegiado para abordar os alunos e abrir um diálogo. O projeto estabelece também parcerias com uma rede de saúde mental, como clínicas de psicologia, para que o aluno seja encaminhado a um profissional. Não queremos que os professores virem psicólogos, mas estejam sensíveis ao adoecimento”, completa o coordenador do projeto, Alexandre Campos, doutor em psicologia pela UFMG.

Comportamento dos adolescentes pode ter diversas causas possíveis

O neuropsicólogo e pesquisador Hugo Monteiro Ferreira chama de “geração do quarto” os jovens com esse comportamento. Segundo ele, são adolescentes que têm dificuldade de interlocução em casa, porém se comunicam muito por meio das redes sociais.
“O bullying e o ciberbullying são muito presentes entre eles, e esses processos de violência sofridos por eles os tornaram pessoas com comportamento suicida e autodestrutivo”, explica o pesquisador, que avaliou jovens em cinco capitais brasileiras para chegar a essas conclusões.
Não só as autolesões são consideradas comportamentos autodestrutivos. Entram nessa lista também, por exemplo, o uso excessivo de álcool e drogas, sexo desprotegido e o vício em jogos e eletrônicos. “Para esses jovens, a permanência no quarto por mais de seis horas ao dia não é escolha, mas o reflexo do sofrimento psicológico”, diz.
Uma dor que não necessariamente vai ficar evidente para os familiares, uma vez que muitos deles não apresentam problemas de rendimento escolar ou dificuldades nítidas de socialização. “Há casos de jovens em estado de adoecimento mental que não recebem um diagnóstico e são avaliados como adolescentes vivendo neuroses comuns da idade. E os pais não percebem porque, apesar de ser uma geração que está do nosso lado, dentro de casa, não é vista e não se comunica com a família. Isso é agravado pela terceirização explícita dos cuidados, que traz uma ideia de ausência de autoridade para eles”, ressalta.

Núcleo familiar
Para o psiquiatra Humberto Corrêa, que é presidente da Associação Latino-Americana de Suicidologia, a queda da taxa de natalidade, com redução no número de integrantes em cada núcleo familiar, agrava o quadro de solidão dos adolescentes. “Antes, eram frequentes famílias com vários filhos; agora, as pessoas têm, no máximo, dois. Os jovens recorrem ao mundo virtual, onde têm 3 mil amigos, mas nenhum é real”, destaca.
A psicanalista Cristiane Ribeiro lembra que a adolescência tende a ser uma fase mais complexa por caracterizar uma fase da vida de descobertas e separações. “É o momento em que as pessoas passam a construir suas próprias histórias e valores. Às vezes, isso ocorre com um grau de agressividade e existe uma certa naturalidade nisso. Mas é preciso observar os sinais para oferecer ajuda caso seja necessário”, completa.

Alcoolismo

Para Humberto Corrêa, o fator com maior peso no alto índice de suicídio entre adolescentes é o uso exagerado de álcool e de outras drogas. “Nossos adolescentes usam álcool cada vez mais cedo e em maiores quantidades. Segundo o IBGE, 70% dos estudantes já consumiram bebida alcoólica”, diz o especialista.
O estudo referido por ele mostrou que 618,5 mil estudantes brasileiros do nono ano do Ensino Fundamental de escolas particulares e públicas já experimentaram bebidas alcoólicas. Cerca de 22% deles já ficaram bêbados. “Temos uma legislação que proíbe o uso de álcool por menores, mas as festas são regadas a álcool. É um emaranhado cultural, porque a família não quer que o adolescente use álcool, mas permite o consumo”, destaca.
A OMS aponta o alcoolismo como um dos principais fatores de risco para o suicídio porque, sob efeito do álcool, as pessoas tendem a apresentar diminuição da capacidade de julgamento, do senso crítico e do autocontrole e tendem a adotar comportamentos agressivos. A entidade estima que 5% a 10% das pessoas dependentes de álcool terminem suas vidas pelo suicídio.