Seletividade alimentar pode ser problema comum na juventude

Criança que não come nenhum tipo de fruta ou verdura. Adolescente que não deixa passar verde no prato. Adulto que resiste a toda e qualquer salada. Quem disse que a seletividade alimentar é só coisa da infância? Pelo contrário, esse comportamento pode se perpetuar pela juventude e a fase adulta, trazendo consequências desagradáveis.
Sim, o comedor seletivo pode crescer! É o que atesta o primeiro estudo que se debruça sobre o avanço da seletividade alimentar ao longo da vida. Realizado pela Universidade Stanford, nos Estados Unidos, o trabalho foi de longa duração e coletou dados com os pais de 61 jovens sobre seus hábitos alimentares aos 2, 7, 9 e 11 anos de idade. Tempos depois, os participantes, todos já com 23 anos, se autoavaliaram para fechar a pesquisa.
Os resultados apontam que mais da metade apresentou algum tipo de problema para comer em um momento da infância, comprovando o que já se desconfiava: naturalmente, a seletividade faz parte dessa fase de descobertas. O padrão é que essa condição seja mais prevalente na primeira infância, atingindo o pico aos 6 anos, e depois comece a diminuir.
Entretanto, a investigação desvendou que os pequenos comedores seletivos apresentam uma probabilidade significativa de se tornarem adultos com o mesmo comportamento. Seis dos dez participantes que tiveram dificuldades alimentares aos 3 anos mantiveram o perfil quando adultos.

Descoberta
O experimento de Stanford traz outra descoberta importante: há indícios de que algumas pessoas passam a ter uma alimentação seletiva só na adolescência ou no início da idade adulta. Por essas e outras, reforça algo que já vinha sendo percebido pelos profissionais no consultório: a seletividade alimentar não deve ser encarada apenas como uma etapa passageira da infância, muito menos como um problema exclusivo de crianças.
Há diversos aspectos a serem olhados de forma mais ampla, sobretudo os fatores comportamentais, e não se pode perder de vista o risco de esse perfil desembocar em um transtorno alimentar propriamente dito. Até porque é possível contornar — desde pequeno! — as dificuldades com a comida.

Probelma
Embora seja injusto dizer que o problema sempre começa e acaba na infância, o fato é que a introdução alimentar não é nada fácil para boa parte dos pequenos e costuma vir acompanhada de uma ou outra dificuldade alimentar.
Há crianças que passam ilesas: logo se sentam, pegam os alimentos, levam à boca e mandam pra dentro (e pelos arredores). Outras, porém, precisam de um maior tempo de adaptação — e paciência. Tranquilo ou não, esse é um período determinante para a aquisição dos hábitos à mesa. “Os primeiros registros desde a introdução alimentar vão organizar o comportamento do indivíduo diante da comida”, explica a nutricionista expert em infância Mariana Del Bosco, professora do Centro Universitário Senac, em São Paulo.

Os sinais de seletividade alimentar

A persistência: a seletividade pode ser passageira e não durar mais do que três ou quatro meses. Além desse período, deve ser encarada como uma dificuldade alimentar.
Pouca variedade: os seletivos consomem um número limitado de alimentos e não querem experimentar o novo. Os itens mais rejeitados costumam ser os vegetais.
Refeição sem fim: se o momento de comer se prolonga demais porque as garfadas são espaçadas e recusadas, algo não vai bem. E é notável o desinteresse da criança pela comida.
Estresse à mesa: a hora da refeição não pode ser tensa. Brigas por causa da comida, choro e angústia de ambos os lados apontam algum grau do problema.
Impacto na saúde: perda de peso, crescimento fora da curva e déficit nutricional são situações que denunciam os estragos da seletividade alimentar.