Um mês do vazamento tóxico em Pontal: o que é o heptano e como ele pode ajudar a elucidar o caso

Substância neurotóxica foi encontrada em análise realizada pelo Departamento de Química da USP em amostras recolhidas do ar. Polícia Civil aguarda novos laudos para concluir investigações.

Moradores buscaram atendimento médico às pressas após vazamento de gás em Pontal, SP — Foto: Reprodução/EPTV

Completa um mês nesta sexta-feira (4) o vazamento de gás em Pontal (SP) que matou uma pessoa e fez com que ao menos outras 90 buscassem atendimento médico às pressas na noite do último dia 4 de outubro.

Entre hipóteses levantadas e descartadas, as investigações não conseguiram concluir até o momento qual foi a substância que provocou os efeitos adversos à população e tampouco de onde ela teria saído.

No entanto, um fato novo que veio à tona na quinta-feira (3) pode ajudar a elucidar o caso: o Departamento de Química da USP de Ribeirão Preto (SP) divulgou o laudo de análises realizadas em materiais coletados no local do vazamento e apontou a presença de heptano em amostras recolhidas do ar.

Para entender melhor do que se trata essa substância e qual será o papel dela nas investigações, o g1 e a EPTV, afiliada da TV Globo, conversaram com pesquisadores da USP que acompanharam ou participaram das análises e com o delegado responsável pelo caso.

De acordo com o pesquisador Bruno Brandão, o heptano costuma ser utilizado como solvente no setor industrial. Segundo ele, em casos de exposição, pode afetar o sistema nervoso, já que é considerada uma substância neurotóxica.

“Heptano é um solvente, hidrocarboneto, muito utilizado na indústria. O fato de ela estar no ar não é comum e pode vir a causar, quando você tem uma exposição aguda, efeitos no sistema nervoso central, como tonturas, alucinações”, diz.

O professor Herenilton Paulino Oliveira pondera, no entanto, que, apesar do potencial, não é possível cravar que o heptano tenha causado o mal-estar nos moradores e até mesmo a morte.

“Foi detectada a presença. Agora, se isso teve impacto na morte, qual foi a fonte, quais efeitos nos indivíduos, é temeroso falar.”

“Se no momento, a pessoa está exposta a um vazamento de heptano, daí a pessoa vai ter uma intoxicação aguda e pode, realmente, levar a óbito. Mas daí a pessoa ficou exposta ao vazamento, a uma atmosfera rica de gás, de alta concentração. [A substância] É neurotóxica”, destaca.

Galinhas mortas

No dia seguinte ao vazamento de gás, o dono de uma empresa de portões relatou que dois cachorros e cerca de 100 galinhas e pintinhos morreram. O local onde os animais estavam fica próximo de onde teria começado o incidente.

Parte das galinhas mortas também passou por análise do Departamento de Química da USP. No entanto, nenhuma substância com potencial danoso, nem mesmo o heptano, foi encontrada.

“Nas nossas análises nas vísceras das galinhas que foram encontradas mortas no local, não encontramos nenhuma substância ou marcador de exposição a uma determinada substância, que justificasse a morte dessas galinhas”, afirma Brandão.

Materiais corroídos

O departamento ainda analisou materiais que apresentaram sinais de corrosão após o vazamento, entre eles papéis, chaves, cadeados e moedas.

Ao g1 no mês passado, o professor Marcelo Firmino de Oliveira afirmou que, dos sete materiais, cinco deles apresentaram hipoclorito na forma ácida. Nesta quinta-feira, ele destacou que o cenário não é comum.

“A forma ácida é instável, pode evaporar, subir a superfície e atacar os metais. O hipoclorito que vem dos produtos de limpeza, não. Ele está na forma alcalina justamente para não apresentar esses efeitos corrosivos e não evaporar. […] Encontrar hipoclorito em uma superfície de uma mesa não é algo esperado.”

Ainda segundo o professor, não é possível afirmar de onde esse hipoclorito ácido foi vazado e se essa era a única substância presente na névoa que cobriu ao menos cinco bairros, sendo o Campos Elíseos o mais afetado.

O que diz a polícia?

Todas as análises feitas na USP já foram enviadas para a Polícia Civil, que nesta quinta-feira ainda aguardava laudos da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), do Instituto de Criminalística (IC) e do Instituto Médico Legal (IML).

Responsável pelo caso, o delegado Igor Dorsa explicou que uma conclusão só será possível quando todos os laudos estiverem prontos.

“Não excluo a possibilidade do heptano até porque o heptano, segundo o que foi informado pelo laudo da USP, ele tem essa potencialidade de causar todos esses efeitos adversos que a população sentiu. A gente precisa dos outros [laudos] para entender se de fato foi o heptano ou outra substância”, ressalta.

Histórico de investigações

A princípio, as autoridades municipais informaram que as suspeitas eram de que o gás tóxico tinha vazado da residência da família da mulher que morreu.

hipótese foi descartada pela Polícia Civil já no dia seguinte ao vazamento, depois que a Polícia Científica vistoriou o imóvel no bairro Campos Elíseos e não encontrou nenhum vestígio no local.

Outra linha de investigação se concentrou em um caminhão que passou pelo bairro Campos Elíseos momentos antes de um cheiro forte começar a ser sentido por moradores. Porém, o delegado Igor Dorsa também descartou a hipótese de que a substância pudesse ter saído do veículo.

Houve, ainda, a suspeita de que uma espuma branca que apareceu no bairro pudesse ter relação, mas isso também foi descartado.

Todos que passaram por atendimento médico prestaram depoimento à Polícia Civil.

Fonte:g1.globo.com