Autismo na vida adulta: quando o diagnóstico traz sentido à própria história

“Eu sempre me senti diferente. Como se estivesse no lugar errado, tentando aprender regras que todo mundo já sabia.”
Essa foi a frase dita por uma paciente de 38 anos em sua primeira consulta. Ao longo da vida, ela observava as pessoas para imitá-las. Ensaiava conversas antes de encontros sociais, evitava ambientes barulhentos e voltava para casa exausta após situações consideradas simples. Recebeu diagnósticos de ansiedade e depressão durante anos. Apenas na vida adulta veio a resposta que trouxe sentido à sua história: ela é autista.
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um transtorno do neurodesenvolvimento. Isso significa que a pessoa já nasce com essa condição. O autismo não surge na fase adulta — ele sempre esteve presente. Os prejuízos começam ainda na infância, principalmente na comunicação social, na interação com outras pessoas, na presença de interesses restritos ou repetitivos e em alterações sensoriais.
Entretanto, nem sempre esses sinais são identificados precocemente. Durante muito tempo, o autismo foi associado apenas a quadros mais evidentes, especialmente em meninos. Hoje sabemos que o espectro é amplo e pode se manifestar de diferentes formas.
No autismo masculino, os sinais costumam ser mais visíveis e externalizados. Já no autismo feminino, é comum a chamada camuflagem social, ou “masking”. Muitas meninas aprendem a observar, copiar comportamentos e se adaptar às expectativas sociais. Essa adaptação pode esconder as dificuldades, mas geralmente gera ansiedade, sobrecarga emocional e uma sensação constante de inadequação. Por isso, muitas mulheres recebem o diagnóstico apenas na vida adulta.
O diagnóstico tardio tem se tornado cada vez mais frequente. Adultos procuram avaliação após anos de sofrimento silencioso, dificuldades nos relacionamentos, sobrecarga sensorial, rigidez de pensamento e exaustão social. Muitos passaram por diferentes tratamentos sem compreender a verdadeira origem de suas dificuldades.
Receber o diagnóstico não muda o passado, mas pode transformar o presente. Com informação adequada e acompanhamento profissional especializado, é possível desenvolver estratégias, fortalecer a autoestima e viver com mais autenticidade e qualidade de vida.
Se você passou a vida tentando se encaixar, sentindo-se diferente ou constantemente exausto por precisar “dar conta” das interações sociais, talvez não seja falta de esforço. Talvez seja falta de compreensão adequada.
Buscar avaliação é um passo de cuidado consigo mesmo. Entender a própria história pode ser libertador.

Elisângela Mantovani Cavallari Rahdar
Psicóloga Clínica – Atendimento a Adultos
Especialista em Transtorno do Espectro Autista

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