Conheça 5 pontos essenciais para entender quem foi Gilberto Freyre

O intelectual pernambucano Gilberto Freyre, nascido em 15 de março de 1900, é considerado um dos mais importantes sociólogos do século 20. Em sua obra-prima Casa-Grande & Senzala, Freyre apresentou uma análise até então inédita sobre as relações pessoais e comportamentais entre senhores de engenho e escravos no Brasil colonial. Reconhecido como um polímata, também contribuiu em campos como a literatura, a política e o jornalismo.
Filho de uma família abastada de linhagem portuguesa, o intelectual começou seus estudos acadêmicos aos 18 anos, com uma bolsa de estudos na Universidade de Baylor, no Texas. Lá se formou bacharel em artes liberais com especialização em ciências políticas e sociais. Em seguida, cursou mestrado e doutorado na Universidade Columbia, em Nova York, onde estudou a vida social no Brasil no século 19, tema que seguiu pesquisando ao longo da carreira.
Freyre morreu em Recife, aos 87 anos, no dia 18 de julho de 1987, vítima de uma isquemia cerebral.

Polímata
Além da sociologia, Freyre é reconhecido por contribuir com campos como antropologia, história, ficção, jornalismo, política, poesia e pintura — foi usando as artes plásticas, aliás, que conseguia se expressar ainda criança, quando tinha dificuldade com as palavras. Enquanto estudava nos Estados Unidos, colaborou com artigos para o Diário de Pernambuco.
De volta ao Brasil em 1926, foi nomeado secretário do então governador do estado, Estácio Coimbra. Em 1945, foi eleito deputado federal e participou da Constituinte no ano seguinte. Além de seu primeiro livro, Casa-Grande & Senzala, escreveu mais de 30 livros durante a vida.

Intelectual premiado
Publicada em 1933, Casa-Grande & Senzala foi traduzido para mais de 10 idiomas e obteve renome internacional. Foi condecorado como doutor honoris causa pelas universidades de Pernambuco, Rio de Janeiro, Coimbra (Portugal), Paris (França), Sussex e Oxford (Inglaterra) e Münster (Alemanha). Recebeu também as mais importantes condecorações da França e de Portugal. E, em 1971, foi nomeado pela Rainha da Inglaterra como cavaleiro-comendador da Ordem do Império Britânico.

Sociólogo
A carreira e o renome internacional de Freyre se devem ao seu pioneirismo e inventividade no campo da sociologia. Contrariando a corrente acadêmica vigente da época, que sustentava o estudo da área por meio de teorias como o marxismo ou a sociologia comparativa de Max Weber, Freyre lançou mão de técnicas da antropologia social. Isso aconteceu a partir de sua formação nos Estados Unidos, onde teve aulas com Franz Boas, pai da antropologia moderna.
Assim, Freyre abordou temas inéditos até então para a sociologia e a historiografia, como a vida privada, a vida sexual, os comportamentos sociais e os hábitos alimentares no Brasil colonial e escravocrata. Para tanto, utilizou como fontes não apenas os documentos oficiais, mas todo tipo de registro secundário.

Obra-prima
Casa-Grande & Senzala encapsula uma tese que ia na contramão das teorias antropológicas vigentes na época, que defendiam a supremacia e a pureza racial branca. A partir da análise das relações sociais nos engenhos coloniais, Freyre chegou à conclusão de que a miscigenação entre colonizadores, escravos africanos e índios foi benéfica para o Brasil, uma vez que todos esses povos acabaram se integrando de forma pacífica, resultando em uma sociedade mais forte e com cultura mais elaborada. Posteriormente, tal conceito foi denominado por outros pesquisadores como “democracia racial”.
Ainda que o termo nunca tenha sido usado por Freyre, ele defendia assumidamente a ideia da mestiçagem, em contraponto às propostas de embranquecimento do povo brasileiro sustentadas por Getúlio Vargas.

Controvérsias
A ideia de democracia racial, em que as várias raças que compõem a sociedade brasileira se integraram e convivem pacificamente – diferentemente da segregação racial que ocorreu nos Estados Unidos, por exemplo – não é bem aceita pela comunidade científica atualmente.
A principal crítica é que esta visão romantiza as violências sofridas pelas populações negras e indígenas nas mãos dos colonizadores e senhores de escravos, ofuscando inclusive o racismo e a desigualdade social no Brasil.