
Com a chegada de setembro, ganha força em todo o país a campanha Setembro Amarelo, voltada à prevenção do suicídio e à valorização da vida.
Além de incentivar o diálogo sobre saúde mental, a mobilização chama atenção para sinais de sofrimento emocional que muitas vezes aparecem de forma discreta no dia a dia.
Criada no Brasil em 2015 pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), a campanha tem como principal marco o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, em 10 de setembro.
O objetivo é ampliar o acesso à informação, combater tabus relacionados à saúde mental e incentivar a procura por profissionais especializados quando necessário.
Sinais de alerta discretos
Segundo a neurocientista Carol Garrafa, nem sempre o sofrimento emocional começa de maneira evidente.
Mudanças no comportamento podem ser confundidas com cansaço, excesso de trabalho, estresse ou uma fase difícil, principalmente quando aparecem aos poucos.
A atenção deve ser maior quando essas alterações se tornam frequentes, persistem por um período prolongado ou começam a prejudicar atividades cotidianas, relacionamentos e também o bem-estar.
Veja cinco sinais de que a saúde mental pode estar pedindo atenção:
1. Mudanças no sono
Dormir muito menos ou muito mais do que o habitual pode ser um dos sinais de que algo não vai bem.
O sono participa de processos importantes para a regulação das emoções, recuperação do organismo, memória e disposição.
Uma noite mal dormida é comum, mas dificuldades frequentes para dormir, despertares constantes ou excesso de sono merecem atenção quando passam a fazer parte da rotina.
2. Irritação e impaciência frequentes
Sofrimento emocional não aparece apenas como tristeza.
Irritação constante, perda de paciência e reações muito intensas diante de situações simples também podem indicar sobrecarga.
De acordo com a neurocientista, períodos prolongados de estresse podem manter o organismo em estado de alerta e tornar mais difícil lidar com situações cotidianas de maneira equilibrada.
3. Isolamento de familiares e amigos
Começar a evitar conversas, cancelar compromissos com frequência ou perder o interesse em estar perto de pessoas que antes faziam parte da rotina também merece atenção.
O isolamento persistente pode estar relacionado à dificuldade de lidar com as próprias emoções ou à falta de disposição mental para manter relações e atividades que antes eram comuns.
4. Falta de concentração e esquecimentos
Esquecer tarefas com frequência, ter dificuldade para manter o foco ou perceber uma queda importante na capacidade de tomar decisões também pode estar associado a períodos de estresse intenso e sofrimento emocional.
Quando grande parte da energia mental está direcionada a lidar com preocupações e emoções, atividades que exigem atenção e memória podem ficar mais difíceis.
5. Perda de interesse pelo que antes dava prazer
Outro sinal é deixar de se interessar por atividades, hobbies ou situações que antes eram prazerosas.
Quando a falta de motivação persiste e começa a atingir diferentes áreas da vida, é importante observar a mudança e buscar orientação para entender o que pode estar acontecendo.
Um sinal isolado não significa diagnóstico
A presença de um desses comportamentos, sozinha, não significa necessariamente depressão ou outro transtorno mental.
O que deve ser observado é a intensidade, a frequência e por quanto tempo as mudanças permanecem. Quando passam a interferir na rotina, no trabalho, nos estudos, nos relacionamentos ou no autocuidado, procurar ajuda profissional pode ser importante.
Também é necessário prestar atenção quando uma pessoa demonstra desesperança, fala sobre morte ou manifesta vontade de desaparecer ou de não continuar vivendo.
Nessas situações, o sofrimento não deve ser minimizado e a pessoa precisa ser acolhida e encaminhada para atendimento.
Onde buscar ajuda
Quem estiver passando por sofrimento emocional pode procurar atendimento na rede pública de saúde, incluindo unidades básicas e Centros de Atenção Psicossocial.
Vidas salvas
Principal referência em apoio emocional e prevenção do suicídio por telefone, em 2025, o Centro de Valorização da Vida (CVV) fez cerca de 2 milhões de atendimentos por meio de chat, e-mail e telefone.
A expectativa é que o número alto de atendimentos se mantenha neste ano — até junho de 2026, o CVV recebeu aproximadamente 1 milhão de ligações.
Dados sobre suicídio
Segundo dados da OMS, todos os anos, mais pessoas morrem como resultado de suicídio do que HIV, malária ou câncer de mama - ou guerras e homicídios.
Entre os jovens de 15 a 29 anos, o suicídio foi a quarta causa e morte depois de acidentes no trânsito, tuberculose e violência interpessoal.
Trata-se de um fenômeno complexo, que pode afetar indivíduos de diferentes origens, sexos, culturas, classes sociais e idades.
De acordo com dados da Secretaria de Vigilância em Saúde divulgado pelo Ministério da Saúde em setembro de 2022, entre 2016 e 2021 houve um aumento de 49,3% nas taxas de mortalidade de adolescentes de 15 a 19 anos, chegando a 6,6 por 100 mil, e de 45% entre adolescentes de 10 a 14 anos, chegando a 1,33 por 100 mil.
Prevenção é possível e começa com empatia
Os dados reforçam que o suicídio é uma questão de saúde pública e pode ser prevenido com ações concretas e escuta qualificada.
CVV: ‘conversar pode mudar vidas’
Para o CVV, a campanha Setembro Amarelo reforça que o diálogo é uma das ferramentas mais poderosas para acolher quem sofre em silêncio.
“Falar alivia. Ouvir acolhe. E, muitas vezes, uma simples conversa pode ser o ponto de virada na vida de alguém”, afirma Eliane Soares, voluntária do CVV.
O serviço funciona 24 horas por dia, gratuitamente, pelo telefone 188, pelo site www.cvv.org.br, por chat ou e-mail (apoioemocional@cvv.org.br), com total sigilo e empatia.



